
Uma nova categoria profissional ganha espaço no país ao propor um olhar humanizado para o encerramento da vida. Inspiradas no suporte que as doulas tradicionais oferecem no momento do parto, as doulas do fim da vida (ou doulas da morte ) atuam na outra ponta da existência.
Elas oferecem amparo prático, existencial e espiritual para pacientes em estágio terminal e suas famílias, complementando os cuidados paliativos , com foco no acolhimento e na preservação da autonomia do indivíduo até o momento da despedida.
Monitoramento da Sala Digital mostra que o assunto nunca foi tão pesquisado no Google quanto em 2026. Em abril, a atriz Nicole Kidman expressou o desejo de se capacitar na área após a perda de sua mãe. Janelle Ann Kidman morreu em 2024, aos 84 anos.
A artista relatou que sentiu falta de ajuda externa e neutra nos momentos finais de sua mãe.
“Quando minha mãe estava falecendo, ela se sentia sozinha, e havia um limite para o que a minha família podia proporcionar. Eu e minha irmã temos nossos filhos e carreiras, e queríamos cuidar dela porque meu pai não está mais aqui, e foi aí que pensei: ‘Gostaria que existissem pessoas no mundo para sentar lá imparcialmente e simplesmente oferecer consolo e cuidado’. Então, isso faz parte da minha expansão e é uma das coisas que vou aprender”, disse em evento da Universidade de São Francisco, no estado da Califórnia, nos Estados Unidos.
Qual é o papel da doula do fim da vida?
O trabalho dessas especialistas ocorre em três momentos distintos da jornada do paciente. Na fase inicial, que se dá logo após o diagnóstico de uma doença incurável, a profissional auxilia na mediação de diálogos complexos sobre o fim da vida e na organização do legado do indivíduo. Nessa etapa, ela orienta sobre as Diretivas Antecipadas de Vontade e o Testamento Vital, garantindo que os desejos médicos da pessoa sejam documentados e respeitados.
Durante o processo ativo de morte, a atuação se concentra em assegurar o conforto ambiental do paciente por meio de métodos não farmacológicos, controlando estímulos como iluminação, sons e aromas. A profissional também gerencia os desgastes emocionais do núcleo familiar.
Após o falecimento, com autorização da família, o suporte se estende à higienização simbólica do corpo, à escolha das vestimentas e à condução de rituais personalizados de despedidas.
Apesar da sensibilidade do ofício, a atuação possui restrições técnicas. A doula do fim da vida não realiza procedimentos clínicos, não ministra medicamentos e não monitora sinais vitais. O papel da profissional não substitui a equipe de medicina paliativa ou de enfermagem. Sua função primordial é preencher a lacuna da presença e da escuta ativa, priorizando o amparo do paciente e o alívio do sofrimento.
Formação e regulamentação
No Brasil, a atividade enfrenta desafios legais importantes. A profissão de doula do fim da vida ainda carece de regulamentação, o que impede que essas profissionais tenham livre acesso garantido a hospitais e unidades de saúde. A legislação em vigor restringe o exercício da atividade de doula apenas durante os ciclos da gravidez e do puerpério, além do parto .
Atualmente, a capacitação para o setor no Brasil se dá por meio de cursos livres fornecidos por associações e institutos independentes. O programa pedagógico inclui disciplinas de tanatologia, psicologia, técnicas de comunicação empática e planejamento de fim de vida, além de diretrizes voltadas à preservação da saúde mental da própria doula.
Mas a atividade ganha um marco inédito no país. A Faculdade Factum e a escola de formação AmorTser, do Rio Grande do Sul, lançam a primeira certificação acadêmica para doulas do fim da vida da América Latina.
O Ministério da Educação (MEC) reconheceu o curso, que oferece 30 vagas com duração de seis meses e início na segunda semana de julho.
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