Jornalismo

Polilaminina: o que é, mortes em testes e o que realmente se sabe

Substância brasileira que reacendeu esperança em lesões medulares vira fenômeno de busca após relatos de “volta a andar”, mortes em protocolos experimentais e polêmica sobre patente

Da redação

DA REDAÇÃO

19/02/2026 • 20:02 • Atualizado em 19/02/2026 • 20:02

Polilaminina, o que é? ” é uma das perguntas mais feitas no Google pelos brasileiros nesta quinta-feira (19). O tema explodiu por causa de uma combinação rara de avanços científicos, relatos emocionantes de recuperação funcional, mortes de pacientes que receberam a substância e polêmica envolvendo patente internacional, tudo envolvendo uma descoberta desenvolvida no Brasil por uma pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O que é polilaminina?

A polilaminina é uma molécula experimental derivada da laminina, uma proteína presente naturalmente no corpo humano, especialmente na matriz extracelular — a estrutura que sustenta e organiza células e tecidos. Pesquisadores brasileiros adaptaram essa proteína para criar um material que funciona como um “andaime biológico”, oferecendo suporte físico e químico para ajudar fibras nervosas a atravessarem áreas onde normalmente não conseguiriam se reconectar após uma lesão medular.

Em termos simples, é uma substância desenvolvida para tentar estimular a reconexão nervosa em casos em que a medula espinhal foi gravemente danificada, como acontece após traumatismos severos que deixam pacientes com paraplegia (paralisia das pernas) ou tetraplegia (paralisia dos quatro membros).

Quem é a cientista por trás da descoberta

No centro dessa história está a Tatiana Coelho de Sampaio, bióloga e professora da UFRJ que pesquisa regeneração da medula espinhal há quase três décadas. Seu trabalho começou com estudos sobre a laminina e evoluiu para a criação da polilaminina. A substância vem sendo testada em modelos animais desde os anos 2000 e agora chegou à fase clínica em humanos autorizada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por que o termo está nas buscas agora

O aumento repentino nas buscas por “polilaminina” está ligado a uma sequência de acontecimentos recentes que misturam avanço científico, comoção pública e controvérsia.

Um dos principais gatilhos foi a ampla repercussão do caso de um paciente com lesão medular que teria recuperado movimentos após receber a substância de forma experimental. O encontro dele com a ex-ginasta Laís Souza — que ficou tetraplégica após um acidente de esqui em 2014 — ganhou forte circulação nas redes sociais e foi noticiado por veículos como o Jornal Panorama Minas, ampliando o interesse do público pelo tema.

Ao mesmo tempo, três pacientes que receberam polilaminina por meio de decisões judiciais morreram após a aplicação. Segundo as informações divulgadas, os óbitos teriam ocorrido em contextos clínicos graves, e não há, até o momento, comprovação de relação direta entre a substância e as mortes — mas a notícia naturalmente intensificou questionamentos e levou mais pessoas a procurar informações sobre o que é, afinal, a polilaminina.

Outro fator que contribuiu para o crescimento das buscas foi uma declaração da própria pesquisadora responsável pelo desenvolvimento da molécula, Tatiana Sampaio, afirmando que o Brasil perdeu a patente internacional da tecnologia devido à falta de recursos para manter o registro fora do país. A afirmação reacendeu discussões sobre financiamento científico e políticas públicas para pesquisa no Brasil.

O que dizem os relatos de recuperação

Um dos casos mais compartilhados recentemente é o de Bruno Drummond de Freitas, que sofreu uma lesão medular completa em 2018 e foi tratado com polilaminina aplicada diretamente na medula. Segundo reportagens locais, ele conseguiu retomar movimentos e até andar novamente após o protocolo experimental, e isso foi amplamente divulgado em vídeo nas redes sociais.

Esses relatos têm forte impacto emocional e geram esperança entre pacientes e familiares. No entanto, especialistas alertam que resultados individuais não equivalem a evidência científica consolidada, e a comunidade médica espera os dados formalizados de estudos controlados.

Fase de testes clínicos: o que isso significa

A polilaminina ainda está em fase inicial de pesquisa clínica, cujo principal objetivo é avaliar segurança — não eficácia — em um número pequeno de participantes.

A Anvisa aprovou em janeiro de 2026 a fase 1 do estudo clínico com polilaminina, envolvendo pacientes com lesões medulares recentes e completas entre vértebras torácicas. Essa fase tem foco na segurança da substância, ou seja, em identificar como ela reage no corpo e se há riscos potencialmente graves que possam impedir seu avanço.

A sequência de fases clínicas é longa:

Até que todas sejam concluídas com dados robustos, a polilaminina não pode ser considerada um tratamento comprovado ou uma cura para lesões medulares.

Liminares judiciais e uso experimental

Apesar de não haver aprovação completa para uso clínico, alguns pacientes no Brasil tiveram acesso à polilaminina por ordens judiciais, decisões de juízes que entenderam que o tratamento poderia ser aplicado em regime experimental antes da conclusão dos estudos formais.

Esse uso sob liminar é diferente da pesquisa clínica autorizada e não segue protocolos que garantam controle científico ou coleta sistemática de dados, o que dificulta a interpretação dos resultados.

O que a ciência recomenda

Especialistas consultados por veículos jornalísticos destacam que:

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