Aos 41 anos, Alcides se viu no fundo do poço. Desempregado, recém-separado e de volta à casa da mãe, sentia-se um completo fracasso. Foi em meio à depressão, no gesto simples de cozinhar para distrair a mente, que ele redescobriu não apenas o prazer, mas um propósito. Impulsionado pelo elogio do filho e pela necessidade de recomeçar, ele transformou a dor da perda na força para construir um novo futuro, vendendo marmitas que, a cada dia, devolvem sua dignidade e o fazem acreditar que o fim foi, na verdade, um novo começo. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM , desta terça-feira, 17 de junho.
O começo do meu namoro com a Laila não teve nada de extraordinário. Eu não posso dizer que foi amor à primeira vista ou que desde o primeiro minuto eu soube que ela era a mulher da minha vida. Mas a verdade é que o que a gente teve foi construído devagar, do jeito que tem que ser... Sem nada exagerado, sem juras de eternidade, nada disso. Só a vontade de estar junto, mesmo cansados, mesmo sem tempo, mesmo com a vida puxada.
Eu conheci a Laila num aniversário de um amigo. Ela tava com uma cara de poucos amigos, sentada perto da churrasqueira, e eu só fui puxar assunto porque era isso ou ficar ouvindo piada sem graça dos caras do trabalho. Aí, conversa vai, conversa vem, a gente foi se entendendo. Depois desse dia, a gente se encontrou mais algumas vezes e, um dia, quando eu percebi, a gente já tava namorando. Não teve um pedido oficial, nem uma data específica. Só aconteceu.
A gente se encaixava nas coisas simples... Dormir abraçado no sofá, dividir uma pizza, rir das mesmas bobagens e, com o tempo, casar pareceu o caminho natural. Não teve igreja, festa, nem vestido branco, nada disso. Nenhum de nós tinha esse sonho, e muito menos dinheiro. O que a gente fez foi assinar os papéis no cartório e fazer um churrasco na laje para comemorar, e pronto. Do nosso jeito.
Ouvindo assim, pode parecer que a gente era sem graça, mas não é isso. Era tudo muito pé no chão, muito real. E por mais que parecesse morno pra quem olhava de fora, entre a gente havia amor. Amor de verdade.
Quando tudo desmoronou
A gente ficou casado por mais de 10 anos e, nesses mais de 10 anos, a gente dividiu tudo. Casa pequena, boletos, estresse, cansaço... A vida nunca foi fácil, mas também nunca foi ruim. Eu trabalhava muito em uma gráfica, e ela era recepcionista em um consultório. Quando nosso filho Lorenzo nasceu, tudo ficou mais apertado, mas também mais bonito. A gente não tinha quase nada, foi quase tudo doado, mas quando ele chegou, trouxe uma alegria que a gente nem sabia que existia.
Mas aí veio o ano em que tudo desmoronou. O Lorenzo tava com 7 anos. Eu, com 41. Para ser bem honesto, o meu casamento já tava passando por um momento meio turbulento. Ao longo de tantos anos, é normal que a gente tenha altos e baixos, e aquela era uma fase de "baixos". Eu sabia que, como sempre, ia acabar passando e eu e a Laila íamos superar. Mas, daquela vez, aconteceu uma outra coisa que agravou tudo.
Era uma terça-feira quando o meu chefe me chamou de canto e disse que o movimento tinha diminuído na gráfica e que, por isso, ele ia precisar me dispensar. O problema é que... é que eu não era registrado e sabia que ia sair dali com uma mão na frente e outra atrás.
– Mandado embora por quê, Alcides?– Tá com pouco serviço. Não tinha o que fazer.– Mas ele vai pagar seus direitos, né?– Que direitos, Laila? Eu nunca tive carteira assinada.– Mas você tava lá há anos! Como vai sair sem um tostão?
Eu sabia que isso era um problema. Dinheiro sempre é problema. Mas a minha esposa não teve coragem nem de me consolar pela perda do emprego, nem um abraço, uma palavra de conforto, nada. Ela só soube falar de dinheiro e dinheiro. Eu falei que ia dar um jeito, que ia resolver, que ia encontrar outro trabalho... Aquela não era a primeira vez que eu era mandado embora. Eu ia resolver, claro que ia.
Naquela noite, a gente jantou em silêncio. Eu tava triste, preocupado e me sentindo sem apoio. Na manhã seguinte, eu acordei cedo, por costume, mas não tinha o que fazer. E foi assim que tudo começou a cair.
Nos primeiros dias depois da demissão, eu ainda tentei manter a rotina. Acordava cedo, colocava uma roupa e me dedicava a procurar emprego. Batia perna, ligava para conhecidos, mas era tudo em vão. Ninguém tava contratando. Em casa, a Laila foi ficando cada vez mais distante. A gente já não tava bem, e piorou ainda mais.
O tempo ia passando, as contas chegando e o pouco dinheiro que a gente tinha guardado, acabando. Tudo virou motivo para briga. E eu, que já tava me sentindo um nada, comecei a acreditar nisso.
– E você quer o quê? Que eu fique sorrindo com esse monte de problema?– Mas você agir assim faz com que eu me sinta culpado, Laila.– E não é? Se não é você, quem é? Quem é que tá sem trabalho?– Não por minha vontade! É cruel você falar isso.– Olha, desculpa, Alcides. Eu tô com a cabeça quente, mas eu não sei mais o que fazer. Tá difícil pra mim... Eu acho que tô precisando de um tempo. A gente tá precisando.– Como assim "um tempo"? Parece que você tá falando com um namorado qualquer. Laila, a gente é casado há anos, tem um filho... Não existe isso de "tempo".– Então eu quero a separação.
Aquela frase foi como um soco no estômago. Eu fiquei parado, sem saber o que responder. Quis discutir, implorar, fazer ela mudar de ideia, mas eu vi nos olhos dela que não tinha volta. Ela já tinha decidido. E, quando a pessoa já decidiu, não adianta espernear.
No dia seguinte, ainda com o mundo girando na minha cabeça, eu comecei a arrumar minhas coisas. Eu não queria que o Lorenzo visse a gente brigando mais. Aquilo já era doloroso demais pra ele, e eu não queria piorar. Eu saí de casa com uma mala e uma mochila e, como eu tava sem dinheiro e sem trabalho, eu só tinha a casa da minha mãe para ir.
Voltar para lá, com 41 anos, depois de tudo o que eu tinha construído, depois de anos que eu tinha saído, foi uma das coisas mais humilhantes que eu já vivi. Eu me sentia... me sentia um fracasso completo. Voltar pra casa da minha mãe foi como encolher. Era como se eu tivesse regredido vinte anos.
O fundo do poço tem cozinha
A depressão me pegou de jeito. Primeiro era só um desânimo. Depois, a falta de vontade de sair da cama. No começo, eu ainda fingia que tava procurando emprego. Depois, nem isso. Eu acordava tarde, às vezes tomava café, às vezes não, e aí passava o dia inteiro calado, olhando para o nada. Eu me sentia um peso, um lixo... Fingir que procurava emprego virou mais cansativo que admitir que eu já tinha desistido. Eu não queria sair, não queria falar. Eu não queria existir.
O Lorenzo ia me visitar nos finais de semana, mas ele não gostava de passar muito tempo lá. Lá era pequeno, não tinha as coisas que ele gostava, não tinha espaço... Ele dizia que a casa da avó era triste, e eu só podia mesmo concordar.
Minha mãe, coitada, até tentava disfarçar, mas eu percebia. Ela não falava diretamente, mas era no jeito de fechar as portas, nos suspiros, nos olhares, nos comentários agressivos, nas indiretas... Ela não me queria ali e, pior: ela tinha pena de mim. Eu via. E como não ter? Eu, sem dinheiro, sem trabalho, sem casa, sem casamento... Eu também tinha pena de mim.
Meses se passaram. E aí veio um sábado à tarde... Minha mãe tava gripada, meio mole, e não tinha feito nada para o almoço. Eu resolvi ir pra cozinha para me distrair um pouco. Antes de casar, eu gostava de cozinhar, mas foi uma coisa que eu tinha deixado de lado. Naquele sábado à tarde, eu peguei tudo o que tinha ali e fui improvisando. No final, saiu um almoço maravilhoso. Tão bom, que até a minha mãe, doente, veio pelo cheiro, comeu e repetiu.
Eu gostei tanto de cozinhar, que no dia seguinte fui pra cozinha de novo. O Lorenzo foi me visitar, e eu falei que ele podia escolher qualquer coisa, que eu ia fazer. Ele escolheu um filé à parmegiana e, quando comeu, disse que era o melhor que ele já tinha comido. Eu não sei explicar o que eu senti. Um orgulho besta, sabe? Mas parecia que, pela primeira vez, em meses, eu tinha acertado alguma coisa. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, eu tivesse algum valor. Me deu prazer... Me deu muito prazer cozinhar e saber que tinham gostado.
No dia seguinte, eu procurei vídeos na internet, receitas fáceis, baratas, para iniciante. Fui testando, inventando, errando e acertando, mudando uma coisa aqui e outra ali... Ficar na cozinha virou a minha terapia e foi cozinhando que eu comecei a voltar para mim.
Uma ideia, uma marmita, um recomeço
Foi aí que o Lorenzo, sem querer, me deu a ideia... Um dia, comendo um estrogonofe que eu tinha feito, ele disse que tava tão bom que eu devia vender a minha comida. Pois isso ficou na minha cabeça, e eu resolvi arriscar. Naquela fase, tava tendo uma obra no fim da minha rua, e eu fui até lá ver com o pessoal se eles aceitariam umas marmitas para experimentar. Não só aceitaram, como encomendaram para o dia seguinte. Aquilo me animou!
Todos os dias eu ia cedinho perguntar o que eles queriam comer e depois cozinhava. Com o tempo, eu resolvi também abrir uma conta na rede social para divulgar o meu trabalho. No começo, quase ninguém via, mas eu tava empolgado.
– Virou marmiteiro, Alcides?– Eu tô me virando, Laila. Eu gosto de cozinhar... Quem sabe não vira meu sustento?– Sei... Você devia era procurar emprego para pagar pensão pro teu filho.– Eu vou pagar. Vai dar certo.– Espero mesmo.
Nem a Laila me desanimou.
A vida que ele temperou com coragem
Eu continuo cozinhando, batalhando, divulgando, indo atrás, e finalmente algum dinheiro começou a entrar. Eu ainda moro com minha mãe, ainda não ganho o suficiente pra ter minha casa. Mas, toda vez que alguém elogia uma marmita, eu ganho um pouco mais de mim de volta.
Hoje eu sei que não sou só o homem que foi deixado. Eu sou o homem que está se refazendo. Hoje, eu tenho dignidade. Hoje, eu acredito em mim de novo. Hoje, eu sei que o fim do meu casamento não foi o fim da minha vida.
E, pela primeira vez, em muito tempo, eu consigo olhar pro futuro sem medo porque eu me reconstruí com as próprias mãos.
Uma colher de cada vez.
*Texto gerado por Inteligência Artificial e revisado pela redação de Band.com.br.
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