Agro

Preço do pão francês deve subir em abril com alta do trigo no mercado

Escassez de cereal no período de entressafra e quebra na safra nacional pressionam custos, com repasse previsto de até 10% nas padarias

VIVIANE TAGUCHI

31/03/2026 • 13:34 • Atualizado em 31/03/2026 • 13:34

Pão francês, massas e biscoitos devem pesar mais no bolso a partir de abril
Pão francês, massas e biscoitos devem pesar mais no bolso a partir de abril - Foto: Reprodução

O preço do pão francês , de massas e de biscoitos deve subir para o consumidor brasileiro a partir de abril, puxado pela alta do trigo. A safra nacional de trigo enfrenta problemas e os custos de produção estão mais altos, já que a maior parte é importada e o câmbio interfere no preço final do cereal.

Segundo o Sindicato da Indústria do Trigo do Estado de São Paulo (Sindustrigo), este fator, alinhado à alta de preços das commodities nas bolsas e mercados físicos nacionais e do exterior, decorrente das incertezas do momento, pressiona toda a cadeia do cereal . “Este fator pode agravar a disponibilidade futura de trigo no estado, já que há sinalização de decréscimo na safra 26/27. As entidades ligadas ao agro relatam intenção do produtor em reduzir a área plantada no próximo ciclo, conforme apontado na reunião de março da Câmara Setorial do Trigo do estado de São Paulo”, pontua o presidente do Sindustrigo, Max Piermartiri.

As projeções do setor de panificação indicam que o reajuste na farinha de trigo pode variar entre 5% e 10% nas próximas semanas. Esse aumento deve ser repassado diretamente ao consumidor final nas padarias de todo o país, embora o índice exato possa variar conforme a região e a concorrência local.

De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) , o cereal já apresenta forte valorização em março. No Paraná, a tonelada de trigo é cotada próxima a R$ 1.253 , enquanto no Rio Grande do Sul o valor atinge R$ 1.114. Em São Paulo, os preços nominais são os maiores registrados nos últimos seis meses.

Entenda por que o trigo está mais caro

A subida dos preços do trigo é explicada por uma combinação de fatores climáticos e de mercado. Um dos principais motivos é a projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima uma safra de trigo 12,3% menor em 2026 no Brasil.

A produção nacional deve somar 6,9 milhões de toneladas , volume insuficiente para suprir a demanda interna. Essa quebra na safra reduz a disponibilidade do grão e força os moinhos a buscarem o produto no exterior, ficando mais expostos às variações do mercado global.

Além da baixa oferta interna, o mercado internacional opera com alta mensal superior a 6% nas bolsas de mercadorias. O cenário é agravado pela valorização do dólar frente ao real, o que encarece a importação do trigo estrangeiro, essencial para completar o abastecimento do país.

Problemas internacionais

De acordo com Max Piermartiri, outro fator que impulsiona a alta é a entrada em vigor da Lei Complementar (LC) nº 224/2025, agravando os custos de aquisição da matéria prima trigo para os moinhos nacionais. A partir de 1º de abril a LC 224 corta o crédito presumido de 3,23% para 2,91% e impõe 1,175% de PIS/COFINS em importados, sem o equivalente creditamento. Segundo estudos de especialistas tributários, a constitucionalidade pode ser questionada, porém não a tempo de impedir seu impacto.

O presidente do Sindustrigo ressalta o cenário de guerra fiscal no setor, decorrente de desequilíbrios tributários que favorecem moinhos de trigo de outras unidades federativas. “Nós levamos as demandas ao governo de São Paulo em busca de um diálogo que possa equilibrar a competição entre os estados e preservar a competitividade da indústria de trigo paulista, sem repassar de forma desproporcional os impactos ao consumidor final”, reforça.

Completando um cenário de volatilidade, o trigo na Bolsa de Chicago já vinha refletindo informes de problemas climáticos (seca) nas lavouras americanas. No cenário global, há sinalização de queda de produção na safra mundial de 2026/2027. A safra argentina 2025/26, com recorde de 29,5 milhões de toneladas, tem qualidade inferior, preocupando moinhos brasileiros e até mesmo os argentinos.

Impacto nas padarias e no bolso do consumidor

O período de entressafra — intervalo entre o fim de uma colheita e o início da próxima — é naturalmente um momento de preços mais altos. No entanto, em 2026, a resistência dos produtores em vender os estoques atuais, à espera de preços ainda maiores, acelerou a alta.

O setor de panificação ressalta que a farinha de trigo é o principal insumo do pãozinho. Quando o preço do grão sobe para as moageiras, o custo da farinha aumenta para o padeiro, tornando o reajuste no balcão inevitável para manter a viabilidade do negócio.

Embora não exista um índice oficial unificado da Associação Brasileira da Indústria de Panificação (Abip), sindicatos regionais alertam que a pressão de custos em março foi intensa. Além do pão francês, itens como macarrão e bolachas também devem apresentar etiquetas mais caras nas prateleiras dos supermercados nos próximos meses.

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