A rodovia federal BR-319, rota logística que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO) , completa cinco décadas de inauguração enfrentando graves problemas de infraestrutura ao longo de quase 900 quilômetros de extensão. Reportagem especial do AgroBand percorreu o trajeto e constatou que a falta de pavimentação asfáltica encarece o transporte rodoviário, compromete a rotina de pequenos produtores agrícolas e mantém cerca de 35 mil pessoas isoladas no Norte do País.
Inaugurada em 1976, a BR-319 já contou com asfalto em toda a sua extensão, mas sofreu deterioração contínua nas últimas décadas. O percurso representa a única ligação terrestre entre as capitais do Amazonas e de Roraima com o restante da malha viária brasileira.
Atualmente, o tráfego regular desaparece sob a poeira nos meses de seca e vira lamaçal durante o período de chuvas. Em diversos trechos, os motoristas enfrentam atoleiros e são forçados a reduzir drasticamente a velocidade para evitar quebras mecânicas nos caminhões.
Caminhoneiros que utilizam a rota com frequência relatam que a velocidade média cai para menos de 10 km/h nos pontos mais castigados . O desgaste severo dos veículos eleva o valor do frete e encarece o preço final dos produtos que chegam aos centros urbanos da região.
O ponto mais crítico da estrada é o chamado "trecho do meio", uma faixa contínua de 405 quilômetros sem cobertura de asfalto. A área corta pequenos distritos e municípios que dependem da rodovia para serviços essenciais de saúde, segurança e comércio.
A precariedade das pistas gera consequências dramáticas para as famílias que vivem nas margens da estrada federal. Em situações de emergência médica, a falta de transporte regular impede o socorro rápido até os hospitais das cidades vizinhas.
Uma moradora da região relatou à equipe de reportagem que perdeu a filha por causa da intrafegabilidade da pista. De acordo com o relato, o longo intervalo entre a passagem dos veículos atrasou a chegada da paciente ao centro médico municipal, quando já não havia recursos para o atendimento.
O estado de abandono da rodovia atinge diretamente o trabalho dos produtores rurais. No município de Careiro Castanho (AM), agricultores familiares dependem do tráfego para receber insumos agrícolas — conjunto de fertilizantes, sementes e defensivos necessários para o plantio e a manutenção das lavouras.
A agricultora Maria Isabel, que cultiva 15 mil pés de abacaxi ao lado do marido, ressalta que o Amazonas depende do envio desses insumos de fora do Estado. Para a produtora, a manutenção da BR-319 é indispensável para assegurar o sustento das famílias do campo.
A demora nas entregas e os custos elevados do frete reduzem a competitividade da safra regional. Além disso, produtos perecíveis correm risco constante de perda durante as viagens lentas pelas áreas esburacadas.
A recuperação da rodovia federal envolve debates históricos que reúnem entraves burocráticos, projetos técnicos e discussões sobre impactos ambientais na Amazônia. O tema ganhou relevância estratégica após crises no abastecimento da região Norte.
Para o empresário e ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera, as condições da estrada representam um entrave que amplia o isolamento de Manaus. Ele lembra que a precariedade do transporte rodoviário dificultou o envio de oxigênio hospitalar durante a pandemia de Covid-19. Cabrera afirma que os impasses para a conclusão das obras isolam uma das principais capitais do País e defende o equilíbrio entre a preservação e a infraestrutura básica.
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