
O enfrentamento do câncer por Preta Gil trouxe muitas emoções e reflexões para um país inteiro. Preta quebrou tabus, ajudou a refletir sobre a qualidade de vida de pacientes que convivem com bolsa de colostomia e nos ajudou a pensar, até mesmo, no papel importante da pesquisa clínica em oncologia com a sua ida para os Estados Unidos para tratamento. Mas, também, nos fez refletir sobre enfrentamento, família e, agora, sobre o luto coletivo que vivemos com a sua partida.
Quando um artista de grande impacto adoece por câncer nos faz perceber a importância de lançarmos luz sobre o processo de adoecimento e, principalmente sobre o tratamento. O câncer, dessa maneira, sai dos bastidores e toma o palco de nossas vidas. Preta enfrentou o câncer e deu notícias em suas redes sociais. Lá, falou sobre os efeitos do tratamento, falou sobre o cansaço e sobre a fadiga, temas com os quais os pacientes precisam lidar cotidianamente.
Dessa forma, contribuiu com reflexões e com informações para que toda a comunidade não médica pudesse se familiarizar com as demandas comuns de pacientes oncológicos.
Inclusive, em uma nota em especial para as suas redes, Preta falou sobre os estigmas importantes relacionados ao uso das bolsas de colostomia. Ela escancarou questões sobre o corpo e naturalizou o uso da bolsa, ajudando pacientes e familiares a lidarem melhor com essa questão.
O ato de entrar em uma piscina e posar para fotos com a bolsa ultrapassou a linha do “midiático” e atingiu diretamente a vida de pacientes que, por sua vez, passaram a vislumbrar um corpo mais funcional e, por que não, mais belo e passível de autocompaixão e, acima de tudo, de aceitação!
Preta trouxe para a sua vida a causa do câncer e, como sempre fez com tudo o que acreditava, adotou e levantou a bandeira!
Diante disso, vale pensarmos na importância de falarmos abertamente sobre o câncer, inclusive nas grandes mídias, como os jornais, TV e redes sociais. Quando um artista nos traz essa questão, tem a oportunidade de levar informações para pacientes que estão começando as suas jornadas até outras esferas de mais difícil acesso como, por exemplo, o impacto e aceleração na execução de políticas públicas de saúde e fomento à pesquisa na área da oncologia.
Preta também trouxe repercussões importantes do ponto de vista psicológico que precisam ser pensadas e vistas como fortes pontos para serem trabalhados nos tratamentos de pacientes oncológicos. Em sua jornada pelo tratamento, destacou o apoio dos amigos e da família como um recurso emocional de enfrentamento importante. Também demonstrou que o enfrentamento emocional pautado na espiritualidade, na religiosidade e no ato de falar sobre seus sentimentos pode ter um potencial terapêutico fundamental para lidar melhor com todo o processo!
Por fim, vale destacar que Preta teve sua vida dedicada à arte e nos deixa um grande impacto para pensarmos na arte que a vida é! Em uma de suas últimas publicações artísticas oficiais, Preta Gil gravou uma música emocionante para um filme que fala sobre pacientes oncológicas, sobre a força da mulher que convive com a doença, sobre esperança e sobre a arte de criar boas memórias:
“...Um voo de beija-florFlutuando no arO tempo me contouQue tudo vai passar
Vai passar
Se o rio não tem fimDeságua e vira marA gente é correntezaE tudo vai passar
Tudo vai passar
Um riso pra esquecerUm gol pra se gritarO sol já vai nascerMil ondas pra pular
E tudo vai passarTudo vai passar...”
(Tudo Vai Passar – Preta Gil)
Caio Henrique Vianna Baptista é psicólogo e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer
