Saúde

Morre Angelita Habr-Gama, pioneira da cirurgia contra o câncer de reto

Médica, pesquisadora e professora da USP revolucionou o tratamento do câncer de reto e foi a primeira mulher a ocupar marcos históricos da cirurgia brasileira

Da redação

DA REDAÇÃO

31/05/2026 • 12:55 • Atualizado em 31/05/2026 • 12:55

Angelita Habr-Gama
Angelita Habr-Gama - Foto: ESTADÃO CONTEÚDO/HÉLVIO ROMERO

A medicina brasileira perdeu uma de suas maiores referências. A professora, pesquisadora e cirurgiã Angelita Habr-Gama morreu na noite deste sábado (30), aos 92 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde ela estava internada desde o dia 6 de maio. O falecimento ocorreu às 22h50.

Professora titular emérita da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Angelita Habr-Gama construiu uma trajetória marcada pelo pioneirismo, pela excelência acadêmica e por contribuições que transformaram o tratamento do câncer de reto em todo o mundo.

Nascida em 1933, na Ilha de Marajó, no Pará, ela se tornou uma das mais respeitadas cirurgiãs do país e uma das principais autoridades mundiais em coloproctologia. Ao longo da carreira, acumulou feitos históricos. Foi a primeira mulher a realizar residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP, a primeira fellow do tradicional Hospital Saint Mark's, em Londres, em 1961, e a primeira mulher a ocupar uma cátedra cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP, na especialidade de coloproctologia.

Anos depois, voltou a quebrar barreiras ao se tornar a primeira mulher admitida como membro honorário da centenária American Surgical Association, uma das mais prestigiadas entidades cirúrgicas do mundo.

Angelita foi responsável pela criação da disciplina de Coloproctologia do Hospital das Clínicas da USP e dedicou grande parte da vida à formação de novas gerações de especialistas. Também fundou e presidiu a Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino e manteve intensa atuação clínica e acadêmica no Instituto Angelita & Joaquim Gama de Coloproctologia e Cirurgia Digestiva.

Sua contribuição mais conhecida para a medicina foi o desenvolvimento e a disseminação do protocolo "Watch and Wait" ("Observar e Esperar"), abordagem inovadora para pacientes selecionados com câncer de reto. A estratégia permite, em determinados casos, evitar cirurgias radicais após resposta completa ao tratamento com quimioterapia e radioterapia, preservando o órgão e a qualidade de vida dos pacientes. O método passou a ser adotado internacionalmente e influenciou diretrizes de tratamento em diversos países.

Reconhecida mundialmente, Angelita Habr-Gama integrou recentemente a lista dos 2% de cientistas mais influentes do mundo, elaborada pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Em 2023, tornou-se a única mulher entre os 34 homenageados com a Medalha Bigelow, uma das maiores distinções da cirurgia mundial, concedida pela Boston Surgical Society.

Entre as diversas homenagens recebidas ao longo da carreira também estão a Medalha do Pacificador e a Ordem do Mérito Santos-Dumont. Em reconhecimento à sua trajetória, foi eleita uma das mulheres mais influentes do Brasil pela revista Forbes.

Desde 1979, Angelita integrava o corpo clínico do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Em nota, a instituição lamentou a morte da médica e destacou sua relevância para a ciência e para a formação de profissionais da saúde.

"O conselho de administração, direção, corpo clínico e assistencial e colaboradores do Hospital Alemão Oswaldo Cruz estão profundamente consternados com esta perda irreparável para a medicina brasileira", afirmou o hospital.

O legado de Angelita Habr-Gama permanece vivo nas milhares de vidas impactadas por suas pesquisas, nos avanços do tratamento do câncer colorretal e nos profissionais que ajudou a formar ao longo de mais de seis décadas dedicadas à medicina.

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