Fórmula 1

Boicote da Michelin, apenas seis carros na largada: o curioso GP dos Estados Unidos de 2005

Falha nos pneus Michelin e impasse com a FIA transformaram a corrida em Indianápolis em um marco na história da Fórmula 1

GABRIEL ALBERTO

15/10/2025 • 12:39 • Atualizado em 15/10/2025 • 12:39

Largada do GP dos Estados Unidos de 2006 contou apenas com os carros da Ferrari, Jordan e Minardi
Largada do GP dos Estados Unidos de 2006 contou apenas com os carros da Ferrari, Jordan e Minardi - Foto: Red Bull

No dia 19 de junho de 2005, o autódromo de Indianápolis viveu um dos capítulos mais curiosos da história da Fórmula 1. O que deveria ser mais um Grande Prêmio dos Estados Unidos terminou com apenas seis carros largando e uma multidão furiosa vaiando e atirando latas na pista.

Tudo começou dois dias antes da corrida, quando Ralf Schumacher , da Toyota, sofreu um forte acidente na curva 13 do anel externo do Circuito de Indianápolis, devido à falha do pneu traseiro esquerdo . O trecho, recém-recapeado e com asfalto mais abrasivo, submetia os pneus a cargas extremas, fazendo com que estourasse no meio da curva.

Com Schumacher fora da etapa, o time chamou o reserva Ricardo Zonta , que também enfrentou o mesmo problema durante os treinos. A Michelin , fornecedora de pneus para sete equipes (Toyota, Red Bull, BAR, Sauber, McLaren, Renault e Williams), entrou em alerta.

Michelin X FIA X Ferrari

Sem entender a origem das falhas, a Michelin decidiu trazer pneus de especificação diferente, os mesmos usados no GP da Espanha. Mas, para desespero das equipes, eles também se mostraram inseguros.

Na véspera da corrida, os representantes Pierre Dupasquier e Nick Shorrock enviaram uma carta ao diretor de prova Charlie Whiting , admitindo que não podiam garantir a segurança dos pneus por mais de dez voltas, a menos que os carros reduzissem a velocidade na curva 13 .

Whiting respondeu surpreso: afirmou que a Michelin havia trazido o composto errado e sugeriu que as equipes limitassem a velocidade dos pilotos no trecho crítico. Rejeitou também o uso dos pneus novos, considerando a troca uma violação do regulamento, e descartou a instalação de uma chicane , pois isso transformaria a corrida em não válida para o campeonato .

Michelin insistiu em um segundo comunicado, pedindo novamente alterações no traçado por razões de segurança. Whiting manteve a posição e ofereceu três alternativas: correr com velocidade reduzida, usar pneus diferentes com penalidade ou realizar vários pit stops durante a prova.

Na manhã da corrida, Paul Stoddart (Minardi) reuniu Bernie Ecclestone , representantes da Michelin, os chefes de equipe e o presidente do circuito, Tony George . O único ausente foi Jean Todt , chefe da Ferrari.

O grupo chegou a iniciar preparativos para instalar uma chicane, mas Ecclestone voltou pouco depois informando que Todt havia se recusado a apoiar a mudança, argumentando que o problema era da FIA e da Michelin. Max Mosley , presidente da FIA, reforçou: qualquer alteração no traçado anularia o GP imediatamente .

Largada com menos carros na história da Fórmula 1

O início da prova seguiu o protocolo normal. Os 20 carros alinharam no grid e partiram para a volta de formação. Mas, ao chegarem à curva 13, os 14 carros com pneus Michelin entraram nos boxes e abandonaram. Restaram apenas seis carros, das equipes Ferrari, Jordan e Minardi , todos calçados com Bridgestone .

Com o abandono em massa, o público explodiu em vaias. Michael Schumacher e Rubens Barrichello lideraram sem oposição, seguidos por Tiago Monteiro e Narain Karthikeyan (Jordan), e Christian Albers e Patrick Friesacher (Minardi).

Enquanto os Ferrari abriam vantagem, milhares de torcedores deixavam as arquibancadas e exigiamreembolso nos guichês do autódromo.

Schumacher venceu a corrida, seguido por Barrichello. Monteiro completou o pódio — o único de sua carreira —, e Karthikeyan se tornou o primeiro indiano a pontuar na Fórmula 1 . Albers e Friesacher fecharam em quinto e sexto. Curiosamente, todos os pilotos de Jordan e Minardi pontuaram naquela tarde, no que também foi a última pontuação da história da Minardi .

Durante o pódio, nenhum dirigente compareceu. A Ferrari recebeu os troféus discretamente e deixou o palco, enquanto Monteiro comemorou sozinho, orgulhoso pelo feito português.

Caso de justiça

A vitória foi a única de Schumacher na temporada e elevou o alemão ao terceiro lugar no campeonato, atrás de Alonso e Räikkönen. Ferrari empatou com a McLaren na vice-liderança dos construtores, mas o resultado teve pouco a comemorar.

A repercussão foi devastadora. Fãs, equipes e dirigentes pediram a renúncia de Max Mosley , e a FIA defendeu sua decisão em comunicado oficial no dia seguinte.

O órgão argumentou que a Fórmula 1 seguia regras claras e que os times não poderiam exigir mudanças após chegarem com equipamento inadequado. Criar uma chicane sem testes de segurança — disse a FIA — seria juridicamente arriscado.

Mesmo assim, as sete equipes Michelin foram convocadas ao Conselho Mundial da FIA para explicar a ausência na corrida. Acusadas de violar o artigo 151C do Código Desportivo Internacional, foram inicialmente consideradas culpadas por não largarem, mas absolvidas posteriormente , após a apresentação de novas evidências: segundo a legislação do estado de Indiana, correr sabendo do risco poderia resultar em acusação criminal .

Direito do consumidor e ajuda da Indy

Para minimizar o desastre, a Michelin anunciou que reembolsaria integralmente os torcedores que compraram ingressos e ofereceria 20 mil entradas gratuitas para o GP dos EUA de 2006.

Como gesto simbólico, uma semana depois, a etapa da Champ Car (Fórmula Indy) em Cleveland concedeu entrada gratuita a quem apresentasse o bilhete do infame GP de 2005.

Newsletter Notícias

Inscreva-se na nossa newsletter e receba as noticias mais importantes do dia direto no seu e-mail.

Selecione os seus temas favoritos: