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Educação médica muda currículo e aposta na ciência do aprender

Durante evento da Harvard Business Review, Carlos Fernando Collares, da Inspirali, reforça que a inovação no currículo vai além da técnica

PRISCILLA VIERROS

16/04/2026 • 15:49 • Atualizado em 16/04/2026 • 15:49

Diretor da Inspirali afirma que formação médica exige olhar para o aluno
Diretor da Inspirali afirma que formação médica exige olhar para o aluno - Foto: Hiro Films/Divulgação

A recente atualização das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) de Medicina, homologada pelo Ministério da Educação (MEC) em setembro de 2025, marca um novo capítulo na formação médica no Brasil.

Fruto de um amplo processo de escuta que envolveu universidades, entidades médicas e a sociedade civil, o documento atualiza o ensino às demandas contemporâneas ao reforçar a integração com o Sistema Único de Saúde (SUS), ampliar o foco em saúde mental, inclusão e diversidade e incorporar temas atuais como tecnologia e inteligência artificial.

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Com essas mudanças, a educação médica brasileira passa por uma transformação. Mais do que atualizar conteúdos, instituições têm buscado entender como o cérebro aprende para estruturar experiências educacionais mais eficazes.

Segundo Carlos Fernando Collares, diretor de Inovação e Qualidade Acadêmica da Inspirali, ouvido durante o HBR Summit Brasil 2026: Healthcare Management, evento realizado pela Harvard Business Review , esse movimento já impacta diretamente a forma como novos médicos estão sendo formados no país. “Hoje pensamos em um currículo que respeita a arquitetura cognitiva do ser humano e segue as melhores evidências científicas em aprendizagem”, afirma.

Esse redesenho não se limita à teoria. Ele influencia tanto a organização das disciplinas quanto a maneira como professores conduzem as aulas e interagem com os estudantes. A proposta é tornar o aprendizado mais significativo, com foco no desenvolvimento progressivo de competências.

Currículo mais flexível e centrado no aluno

Um dos pilares dessa inovação é o equilíbrio entre diretrizes pedagógicas e autonomia docente. Embora haja orientação institucional baseada em evidências, os professores são incentivados a adaptar o conteúdo conforme a dinâmica da turma.

“A gente evita uma cartilha rígida. O professor precisa ter liberdade para ajustar a experiência de aprendizagem de acordo com o que percebe nos alunos”, diz.

Esse modelo busca romper com estruturas tradicionais engessadas e abre espaço para abordagens mais personalizadas, respeitando diferentes ritmos e formas de aprender.

Outro ponto central dessa nova abordagem é a valorização da identidade profissional. Para além de dominar procedimentos e conhecimentos técnicos, o objetivo é formar médicos conscientes do papel que irão exercer na sociedade.

"Mais importante do que saber fazer é quem esse profissional vai se tornar. Queremos uma formação sólida, que desenvolva compromisso com a excelência e com o cuidado. Carlos Fernando Collares"

A crítica implícita é ao modelo puramente “transacional” de ensino, focado apenas na obtenção do diploma. Em contraste, a proposta atual busca formar profissionais mais completos, preparados não só tecnicamente, mas também eticamente e emocionalmente.

Relação entre professor e aluno ganha protagonismo

A qualidade da formação também passa pela relação entre docentes e estudantes. De acordo com o especialista, a literatura científica já demonstra que o maior impacto de um professor está na capacidade de inspirar. “Se o professor é entusiasmado, curioso e apaixonado, o aluno tende a incorporar essas características”, afirma.

Nos primeiros anos da graduação, esse vínculo é ainda mais importante, especialmente para estudantes que vêm de outras cidades e enfrentam um processo de adaptação. O apoio próximo ajuda a construir confiança e engajamento.

Autonomia construída ao longo do curso

O desenvolvimento do estudante, no entanto, não é imediato. Ele ocorre de forma gradual, com redução progressiva da supervisão, em um processo comparado à construção de um prédio. “No começo, o aluno precisa de mais apoio. Com o tempo, vamos retirando esse suporte, como um andaime, até que ele consiga atuar de forma independente”, explica.

Esse modelo prevê feedbacks constantes no início da formação, que se tornam mais espaçados à medida que o estudante ganha maturidade. O objetivo final é que, além de atuar com autonomia, ele também seja capaz de ensinar outros colegas.

A combinação entre ciência da aprendizagem, inovação curricular e relações mais humanas aponta para um novo momento da educação médica no Brasil, com foco não apenas no que o futuro médico sabe, mas em quem ele se torna ao longo da formação.

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