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Por que a formação médica virou desafio no Brasil

Em evento da Harvard Business Review, especialistas defendem qualidade e prática na formação médica

PRISCILLA VIERROS

15/04/2026 • 19:21 • Atualizado em 15/04/2026 • 19:21

HBR Summit Brasil 2026 reuniu especialistas em saúde nos dias 13 e 14 de abril, em São Paulo
HBR Summit Brasil 2026 reuniu especialistas em saúde nos dias 13 e 14 de abril, em São Paulo - Foto: Divulgação/ Hiro Films

A formação de profissionais da saúde no Brasil passa por um ponto de inflexão. Em meio à expansão do ensino superior na área, especialistas afirmam que o desafio agora não é apenas formar mais médicos, mas formar melhor.

Esse foi o eixo central de uma mesa de debate durante o HBR Summit Brasil 2026: Healthcare Management, evento realizado pela Harvard Business Review, que reuniu educadores e pesquisadores para discutir os rumos da educação médica no país.

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“Formamos muitas pessoas, mas volta e meia a gente ouve falar que a quantidade está ok, mas a qualidade talvez a gente precise melhorar”, provocou o moderador Rafael Coimbra, editor-chefe da MIT Technology Review Brasil, ao abrir a conversa.

Ensino além do conteúdo e mudança de paradigma

Para Carlos Fernando Collares, diretor de Inovação e Qualidade Acadêmica da Inspirali, o caminho passa por uma mudança estrutural na forma de ensinar.

“Essa necessidade de transformação na educação médica brasileira pode ser resumida em uma única palavra: respeitar a arquitetura cognitiva do ser humano”, afirmou.

Segundo ele, a neurociência da aprendizagem deve orientar a reformulação dos currículos, ainda excessivamente centrados na transmissão de conteúdo.

“O conhecimento é o substrato sobre o qual se desenvolvem as habilidades de raciocínio clínico. É, portanto, uma condição necessária, mas não suficiente”, explicou.

Para além do saber técnico, Collares destacou a importância da formação da identidade do futuro profissional. “Quando a excelência emerge de uma identidade sólida e comprometida, os resultados começam a aparecer.”

Metodologias ativas e o fim do modelo tradicional

A necessidade de romper com modelos tradicionais também foi destacada por Ana Brandão, pesquisadora do Brigham and Women's Hospital, ligado à Harvard Medical School. “O modelo tradicional de ensino não cabe mais. O aluno hoje não consegue permanecer uma hora atento a uma aula expositiva."

Como alternativa, ela defende metodologias mais dinâmicas, como o ensino baseado em casos, que aproxima o estudante da prática profissional. “Isso motiva o aluno a compreender problemas do dia a dia e aumenta o engajamento.”

Experiências internacionais reforçam esse movimento. Collares citou iniciativas adotadas nos Países Baixos, como programas que ensinam o aluno a aprender.

"Uma das técnicas mais eficazes é testar o aprendizado do estudante. Recuperar a informação por meio de desafios tem efeito comprovado. Carlos Fernando Collares"

Ele também destacou o uso de metodologias ativas , como a aprendizagem colaborativa baseada em casos, desenvolvida na Harvard Medical School e incorporada ao novo currículo da Inspirali. “Encontramos um equilíbrio em que o aluno é protagonista, enquanto o professor retoma seu papel de orientar, aprofundar e corrigir.”

O papel do professor na nova educação médica

Nesse cenário, o papel do docente ganha ainda mais relevância - e também novos desafios. “Um professor motivado motiva o aluno”, disse Collares. Para ele, o desenvolvimento docente deve ser contínuo e baseado em comunidades de prática, e não em treinamentos pontuais.

Inteligência artificial e pensamento crítico

A discussão também abordou o impacto da inteligência artificial na educação. Para os especialistas, a tecnologia deve ser vista como aliada, mas com limites claros. “A IA pode ser uma parceira no pensamento, mas não substitui o cérebro”, afirmou Collares.

Ele alertou para o risco de perda de habilidades cognitivas e defendeu um uso mais estratégico em sala de aula. Além disso, cresce a preocupação com a qualidade da informação disponível. “O papel do professor como curador é fundamental”, disse Ana. “Ele precisa ajudar o aluno a separar o que é confiável do que não é e desenvolver o pensamento crítico.”

Tecnologia e democratização do ensino

Por fim, os convidados apontaram o potencial da tecnologia para democratizar o acesso ao ensino em saúde. Iniciativas como a WHO Academy, da Organização Mundial da Saúde, e cursos online de universidades internacionais ampliam o alcance do conhecimento. “É possível levar ensino de qualidade a locais que antes não tinham acesso”, afirmou Ana.

O consenso entre os especialistas é que a educação médica precisa evoluir. Mais do que transmitir conteúdo, é necessário formar profissionais críticos, preparados e comprometidos, capazes de atuar em um cenário cada vez mais complexo e dinâmico.

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