
Entre as perguntas que os brasileiros mais fizeram ao Google nesta semana (entre elas, "tem brasileiros na Nasa?", "algum brasileiro já pisou na Lua?", "o Brasil tem foguete?") há uma lacuna evidente entre o que o país faz no espaço e o que a população sabe sobre isso.
Os dados do Google Trends revelam uma curiosidade intensa, mas também uma desinformação que contrasta com a realidade. O Brasil tem dois projetos ativos negociados com a NASA dentro do programa Artemis e um deles envolve plantar comida fora da Terra.
A missão Artemis II decolou do Centro Espacial Kennedy no dia 1º de abril com quatro astronautas a bordo da cápsula Orion: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen. É a primeira missão tripulada além da órbita baixa da Terra desde a Apollo 17, em dezembro de 1972. Glover tornou-se o primeiro homem negro, Koch a primeira mulher e Hansen o primeiro não-americano a viajar para as proximidades da Lua. Nenhum deles é brasileiro. Mas a ciência brasileira está no programa e com protagonismo em uma área inesperada.
A rede de pesquisa Space Farming Brazil, coordenada pela agrônoma Alessandra Fávero e que reúne cientistas de 22 instituições — entre elas Embrapa, IAC, Cena e Esalq/USP — representa o Brasil nos Acordos Artemis com foco em um problema crítico: como produzir alimentos em ambientes de radiação extrema, microgravidade e ausência total de solo fértil. Sem resposta para essa pergunta, qualquer base lunar permanente é inviável. Hoje, o transporte de um quilograma de alimento da Terra para a Lua tem custo aproximado de US$ 1 milhão — o que torna a produção local não apenas desejável, mas obrigatória.
Os cultivos estudados pela Embrapa incluem batata-doce e grão-de-bico, escolhidos pela densidade nutricional e pela adaptabilidade a condições extremas. Em dezembro passado, uma equipe da Embrapa realizou sua primeira missão espacial análoga no Habitat Marte, em Caiçara do Rio do Vento (RN), montando experimentos com tomates em sistemas hidropônicos e aeropônicos monitorados remotamente por sensores de Internet das Coisas. Os sistemas testados demonstraram capacidade de economizar até 80% de água e nutrientes. Trata-se de uma tecnologia com aplicação direta na agricultura familiar brasileira em regiões de desertificação.
O segundo projeto brasileiro no Artemis é o nanossatélite SelenITA, desenvolvido pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em parceria com o INPE. Em junho de 2025, o projeto passou pela Revisão de Definição de Sistema com aprovação unânime por uma comissão internacional, confirmando maturidade técnica e potencial científico.
O que conecta a agricultura espacial e o satélite científico é a lógica de retorno para a Terra que orienta o programa Artemis como um todo. Luisa Santos, mestranda no INPE com pesquisa em automação de missões de espaço profundo, resume essa lógica com precisão: "A Artemis II, nesse momento, é a validação de vários subsistemas. E após isso vão ter a Artemis 3, para validar a tecnologia para no futuro a gente conseguir fazer os nossos habitats na Lua. Por que habitats na Lua são importantes? Porque com todas as problemáticas que a gente tem dentro de um habitat lunar, a gente conseguiria melhorar nossa qualidade de vida na Terra no quesito de automatização, otimização de sistemas e recursos extremos", afirmou em entrevista à BandNews TV.
O administrador da NASA, Jared Isaacman, declarou no dia do lançamento que a missão "não é apenas o retorno à Lua, mas o início de uma era de ouro para a ciência e as descobertas". Para o Brasil, essa era começou, mais discretamente, com bactérias, sementes e sensores num habitat simulado no Rio Grande do Norte.
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