Jornalismo

Hélio-3: o combustível que pode valer US$ 20 mi por quilo

Buscas pelo isótopo lunar batem recorde esta semana, enquanto a China lidera o interesse global e startups já planejam mineração para 2030

Da redação

DA REDAÇÃO

04/04/2026 • 18:39 • Atualizado em 04/04/2026 • 18:39

Nasa lança foguete para a Lua em 1ª missão tripulada em mais de 50 anos
Nasa lança foguete para a Lua em 1ª missão tripulada em mais de 50 anos - Foto: REUTERS/Marco Bello

Quando a NASA lançou a Artemis II no dia 1º de abril, o mundo assistiu ao retorno histórico dos humanos à órbita lunar. Mas há outro motor por trás dessa corrida que registrou nesta semana recorde de buscas no Google nos últimos 12 meses: o Hélio-3.

Dados do Google Trends mostram que a China lidera globalmente o interesse pelo isótopo, seguida por Coreia do Sul, Finlândia, Canadá e Estados Unidos. O Brasil não aparece entre os primeiros colocados nessa busca específica, mas o pico de interesse global acontece exatamente na semana em que quatro astronautas cruzam o espaço em direção à Lua.

A coincidência não é casual, uma vez que a missão Artemis II é, entre outras coisas, uma peça no tabuleiro maior da disputa pelos recursos do Polo Sul lunar e o Hélio-3 é o recurso mais estratégico dessa disputa.

O isótopo é raríssimo na Terra, onde o estoque global é estimado em menos de 15 quilogramas. Na Lua, a história é outra: a NASA estima que mais de 1 milhão de toneladas métricas de Hélio-3 existem na camada superficial do solo lunar, depositadas ao longo de bilhões de anos pelo vento solar. Suas aplicações potenciais vão da fusão nuclear à computação quântica e à imagiologia médica e atualmente o isótopo é negociado a cerca de US$ 20 milhões por quilograma.

A lógica econômica começa a atrair capital privado. A startup americana Interlune, fundada por ex-executivos da Blue Origin e pelo geólogo Harrison Schmitt — o único cientista a já ter pisado na Lua, durante a Apollo 17 —, garantiu US$ 18 milhões em financiamento para mapear e extrair Hélio-3 do solo lunar, com planos de lançar uma missão de mapeamento e enviar missões de coleta de amostras até 2027. A empresa já anunciou um acordo com o Departamento de Energia dos EUA para fornecer três litros do isótopo quando a operação estiver ativa.

O interesse chinês não é retórico. O cosmoquímico Ouyang Ziyuan, responsável pelo Programa de Exploração Lunar da China, declarou em múltiplas ocasiões que um dos objetivos centrais do programa é a mineração de Hélio-3. Pequim planeja pousar taikonautas na Lua até 2030 e já tem o foguete Longa Marcha-10, a nave Mengzhou e o módulo de pouso Lanyue em fases avançadas de teste. Lidar o ranking de buscas por Hélio-3, nesse contexto, não é apenas dado de comportamento digital — é sinal de estratégia.

Para Luisa Santos, mestranda no INPE com pesquisa focada em automação de missões de espaço profundo, o que está em jogo ultrapassa a geopolítica imediata: é sobre o legado tecnológico que cada avanço espacial deixa na Terra. "Qualquer pesquisa que é desenvolvida, existem estudos que explicam que o retorno para a Terra é de mais de 90%. Todos os desenvolvimentos feitos desde a corrida espacial retornaram para a Terra: melhoria de qualidade de vida, ressonância magnética, termômetro digital. Tudo retorna pro ser humano", afirmou em entrevista à BandNews TV.

A Artemis II não tem como objetivo aterrissar ou coletar amostras. Trata-se de uma missão de validação de sistemas. A cápsula Orion, batizada de "Integrity" pela tripulação, realizou a queima de injeção translunnar no dia 2 de abril, colocando a nave em trajetória direta para a Lua, com o ponto mais distante da Terra em cerca de 406 mil quilômetros. Mas é exatamente essa infraestrutura, testada agora, que abrirá caminho para as missões seguintes, onde o acesso ao Polo Sul e seus recursos entra em cena de verdade.

Com planos de extração comercial visados para a década de 2030 por mais de 15 agências espaciais nacionais, o setor de mineração lunar projetou investimentos superiores a US$ 3,2 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de Hélio-3. O recorde de buscas desta semana é apenas o mais recente sinal de que o mundo percebeu o que está guardado naquele solo cinzento.

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