Joana estava pronta para seguir em frente após descobrir a traição do marido. Mas, dias antes da separação, Rogério sofreu um grave acidente de moto e se tornou completamente dependente. O que seria libertação virou fardo — e ela ficou presa a um casamento que já havia terminado. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM , desta quarta-feira, 23 de julho.
Eu e o Rogério começamos a namorar logo depois que a gente terminou a faculdade. Parecia o momento exato pra isso, sabe?
Os dois já formados, começando a carreira, depois de terem aproveitado bastante a vida de solteiro.
Nosso namoro era muito tranquilo e tinha muita parceria. Eu posso dizer que nós amadurecemos bastante juntos.
Depois de algum tempo, veio o casamento e, dois anos depois, a nossa filha, Vitória.
As coisas foram acontecendo. Criar uma filha, comprar um carro, perder emprego, conseguir outro, trocar de carro, arriscar e começar um negócio, falir, começar outro, fases boas, fases ruins... como todo casal! E assim, os anos voaram.
Um fim silencioso para o casamento
Nós já estávamos juntos há 12 anos quando eu me dei conta de que o nosso relacionamento não tinha mais paixão. Na verdade, não tinha mais nada... nem paixão, nem amor, nem companheirismo, nada. Era tudo no automático, era tudo mecânico. Não que fosse uma vida ruim, mas também não era um casamento feliz. Como poderia ser se não tinha amor?
Naquele momento, quando eu parei mesmo para pensar, já devia fazer uns 4 ou 5 anos que a gente só ia empurrando com a barriga. A gente não se olhava, não se tocava, não tinha carinho, sabe?
Nós dois estávamos ali porque era cômodo, porque divórcio dá muita dor de cabeça e porque, acima de tudo, tinha uma criança envolvida. Uma criança que a gente amava mais do que qualquer coisa e que era muito apegada a nós dois.
O alívio que virou prisão
Depois de tantos anos levando, a situação começou a me incomodar mesmo. Eu me olhava no espelho e via uma mulher de 38 anos, que ainda era muito bonita, jovem, cheia de energia, de sonhos, de vontades e que não podia se anular em um casamento fracassado. Mas, mesmo sabendo e sentindo tudo isso, faltava a coragem para me separar.
Até que o Rogério começou a ficar ainda mais distante de mim. Ele já nem dormia na nossa cama, passava o tempo todo no celular, e muitas vezes voltava tarde para casa.
Ele tava com outra. Eu tinha certeza. Mas isso não me abalava em nada, para ser sincera.
Um dia, ele chegou em casa com uma cara péssima e disse que a gente precisava conversar.
— Joana, as coisas não estão bem faz tempo... E... bom. Eu conheci alguém. Eu não devia ter feito isso, mas... eu vou sair de casa.
— Aham... Claro... Tudo bem. Eu agradeço a sinceridade e acho que a gente pode fazer isso como duas pessoas civilizadas.
— Claro! Eu quero que tudo seja o menos traumático possível para a nossa filha. Ela não merece sofrer.
— É só com isso que eu me preocupo também. Eu não te desejo mal e nunca vou desejar. Nós tivemos uma história linda.
— Que bom te ouvir falando isso. Eu já pensei em tudo. Você e a Vitória ficam aqui no apartamento e eu vou arrumar um lugar para ficar.
— Mas esse apartamento é dos seus pais. Eles que emprestaram pra gente morar. Não é justo...
— Imagina! Essa é a casa da nossa filha. Vocês ficam e eu saio. Eu só preciso de uns dias, uns 10 dias, para me ajeitar e encontrar um lugar.
Eu nem tentei fingir surpresa por ele estar me falando que tinha uma amante. A realidade é que, por dentro, eu tava no maior alívio desse mundo. Juro por Deus, a minha sensação era a de que alguém tinha destrancado a porta de uma prisão. Eu me senti tão bem, que já no dia seguinte fui ao salão, cortei e pintei o cabelo, fiz uma massagem, depilação, as unhas... eu tava me sentindo linda e poderosa. Eu tava me preparando para a nova fase! Em 10 dias começaria uma nova vida para mim.
"Só que ela acabou cinco dias antes de começar."
Quando a liberdade escapa das mãos
Exatamente 5 dias depois dessa nossa conversa, o Rogério sofreu um acidente de moto. Foi uma coisa horrível! Ele ficou prensado entre a moto e um ônibus e teve uma fratura exposta grau 3 na perna dele. Ele foi levado para um hospital e passou sei lá quantas horas na mesa de cirurgia.
Quando acabou, o médico disse que o caso dele era gravíssimo, que a perna tinha sido praticamente triturada e que eles chegaram a cogitar amputar, mas que tinham apenas deixado o Rogério com aqueles fixadores, tipos de gaiola nas pernas, sabe? Cheia de metal, parafusos, até que o osso fosse se recompondo, mas era impossível dizer quando isso aconteceria.
Quando nós voltamos para casa, depois de dias de hospital, ele ainda estava em uma cadeira de rodas, sem saber como viver com aquele negócio na perna.
Eu vi o meu marido ali, totalmente incapaz, dependente e deprimido com a situação e entendi que todos os meus planos tinham ido por água abaixo.
Eu ainda imaginei que a outra lá, a amante, fosse aparecer, fosse pedir o homem dela, cuidar dele, mas até parece... essa daí nunca mais deu as caras. Deve ter amado só até a hora da UTI e sobrou pra mim, a "futura ex-mulher", o papel de cuidadora.
Para alguns, o jeito como eu tô falando agora pode parecer frio, mas não se esqueça que aquele homem ali era o homem por quem eu não tinha mais nenhum amor e que tinha arrumado outra mulher. Eu não podia sair soltando fogos de felicidade por saber que eu é quem teria que cuidar dele. E não tô falando de qualquer cuidado, não. Eu tô falando de dar banho, trocar curativos, acordar de madrugada para dar remédio, ajudar a se virar quando tava deitado, dar comida, e além de tudo, cuidar da casa e do comércio que a gente tinha. Tudo sozinha, tudo nas minhas costas.
O Rogério ainda sentia muitas dores e não tinha condição de fazer nada sozinho.
Me chame de egoísta, de ruim, de cruel, mas a verdade é que ele se tornou um fardo pra mim. Mas o que eu ia fazer? Ele era pai da minha filha, legalmente ainda era o meu marido, os pais dele eram donos daquele apartamento onde nós vivíamos. E, mesmo irritada, eu não era um monstro.
— Eu sei que não tá fácil. Eu... eu agradeço pelo que você tem feito.
— Aham... Na saúde e na doença, né?
— Você tá fazendo piada, mas eu sei que a gente nem tava mais casado...
— No papel a gente ainda tá.
— Bom. Eu vou fazer tudo certinho pra me recuperar logo. Daqui a pouco eu tiro essa coisa de mim.
Mas o que parecia ruim, ficou ainda pior...
“Você só quer se livrar de mim!”
O Rogério começou a ter uma complicação atrás da outra na perna. Infecção, pus, inflamação, dor insuportável… e um dia teve que voltar pra mesa de cirurgia. O que já era difícil virou um pesadelo.
Ele gritava de madrugada de tanta dor, ficava oscilando entre estar deprimido e agressivo. Descontava em mim. E eu, já sem a menor paciência, seguia cuidando de tudo, odiando cada minuto.
A recuperação, que a gente já sabia que seria demorada, virou um caminho sem fim.
A perna inchava, infeccionava de novo, precisava drenar, refazer ponto, recomeçar curativo. Ele sentia febre, calafrio, enjoo... O médico disse mais de uma vez que ele podia perder a perna. E um dia, vendo aquele sofrimento todo, eu criei coragem e falei o que já vinha engolindo fazia semanas.
— O que? O que você disse?
— Eu sei que é duro de ouvir, Rogério… Mas talvez amputar de uma vez seja o melhor caminho. O médico mesmo já falou dessa possibilidade.
— Amputar? Cortar a minha perna fora? Ficar... ficar aleijado?
— Hoje em dia existem próteses modernas, gente que até corre, faz exercício, joga futebol... Você teria uma vida muito mais próxima do normal do que isso que você vive hoje. Você teria autonomia de novo.
— Você tá me mandando cortar minha perna fora? É isso? Egoísta! Só pensa em você! Tá cansada de cuidar do homem que te deu tudo? Pois deixa eu te contar uma coisa: quem mais se ferrou aqui fui eu! Olha pra mim, Joana! Olha bem!
E ali, ouvindo aquilo, eu comecei a chorar. Porque não era simples. Eu não desejava mal nenhum pra ele. Eu só não aguentava mais aquela vida.
Eu queria o bem do Rogério, queria que ele melhorasse, queria que ficasse em pé de novo. Mas também queria sair daquela prisão. Porque aquele homem ali já não era mais o meu marido. Era só um estranho doente, amargo, que precisava de mim, mas não conseguia enxergar nada do que eu fazia. Nem gratidão, nem empatia. Nada.
“Eu fiquei, mas quem sou eu?”
Eu tenho vontade de sumir. De fugir dessa casa, desse homem, de tudo isso… mas como é que eu vou fazer isso?
Eu tenho uma filha aqui. Uma menina que ama o pai, que se preocupa com ele, que quer estar por perto. E aí vem a culpa, né? Porque por mais que eu queira ir embora, eu fico pensando: quem é que vai cuidar dele? Ele não tem irmão, os pais são dois senhores de idade, e até a amante, que ele achou que ia ser a salvação da vida dele, desapareceu. Sobrou pra mim.
Tem dias em que eu acordo e nem lembro mais quem eu sou. Eu não sei se ainda sou mulher, se sou esposa, se sou enfermeira, se sou só a mãe da Vitória... Eu me olho no espelho e vejo alguém apagada, cansada. Uma versão que eu jamais imaginei que um dia me tornaria.
"E o pior de tudo não é o que eu vivo. É saber que eu não quero viver isso."
Não quero essa casa, essa rotina, esse peso, esse homem.
Mas eu tô aqui porque me falta coragem, porque tem uma criança no meio, porque a vida me pregou essa peça e eu simplesmente... simplesmente fiquei.
Viver uma vida que a gente não escolheu é um tipo de prisão sem grades.
Você acorda todo dia, respira fundo e continua.
Mas, por dentro, já não tá mais viva faz tempo.
*O texto foi gerado artificialmente e foi revisado por Band.com.br.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as noticias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:
