
Após mais de uma década de tratamentos, a ex-ginasta Laís Souza voltou a chamar atenção ao aparecer de pé e caminhando com auxílio tecnológico em um evento em São Paulo, em abril de 2026.
O momento simboliza não apenas um avanço individual, mas o resultado de uma longa e complexa linha do tempo de intervenções médicas , que vão desde terapias experimentais com células-tronco até o uso recente de exoesqueletos robóticos e o acompanhamento de pesquisas brasileiras inovadoras.
A seguir, a trajetória clínica da atleta desde o acidente que a deixou tetraplégica, em 2014.
2014: o acidente
A história de reabilitação de Laís começa em 27 de janeiro de 2014 , quando ela sofreu uma queda durante um treino de esqui aéreo em Park City, nos Estados Unidos. O impacto causou lesões nas vértebras cervicais C3 e C4, comprometendo funções motoras e respiratórias.
Nos primeiros meses, o foco foi a estabilização clínica. Internada em estado grave, Laís dependia de ventilação mecânica. A prioridade da equipe médica era preservar suas funções vitais.
Com fisioterapia respiratória intensiva, ainda em 2014, ela conseguiu deixar o respirador e recuperar a capacidade de falar — um dos primeiros marcos da recuperação.
2014–2015: início das terapias com células-tronco
Ainda no primeiro ano após o acidente, Laís passou a integrar um protocolo experimental no Miami Project to Cure Paralysis, referência mundial em lesões medulares.
Ela foi a primeira pessoa com paralisia autorizada pelo governo dos Estados Unidos a receber injeções de células-tronco mesenquimais diretamente na região lesionada da medula. As células foram retiradas da própria bacia da atleta.
Entre 2014 e 2015, foram realizadas três aplicações. O objetivo não era uma cura imediata, mas estimular a regeneração neural e reduzir danos inflamatórios.
2015–2017: primeiros sinais de sensibilidade
Após as intervenções iniciais, começaram a surgir os primeiros relatos de resposta neurológica.
Laís passou a relatar:
Esses sinais indicavam atividade nervosa residual ou possíveis conexões sendo restabelecidas.
Paralelamente, ela iniciou o uso contínuo da estimulação elétrica funcional (FES) , técnica que provoca contrações musculares por meio de impulsos elétricos, ajudando a preservar massa muscular e circulação.
2017–2020: reabilitação intensiva e controle de tronco
Com a evolução sensitiva, o foco passou a ser o fortalecimento muscular e o controle postural.
Nesse período, Laís:
Esses equipamentos são fundamentais para prevenir complicações como osteoporose por desuso e problemas circulatórios.
2020–2024: ganhos graduais e manutenção física
A evolução seguiu de forma lenta e não linear. Exames realizados nos Estados Unidos indicaram melhora na sensibilidade periférica e contrações voluntárias em músculos profundos.
Entre os avanços relatados:
Em 2025, Laís afirmou ter recuperado sensibilidade no dedo mínimo da mão esquerda — um dos sinais mais específicos de progressão neurológica.
Durante todo esse período, a rotina foi marcada por fisioterapia diária, uso de FES e treinos de ortostatismo. O objetivo principal era manter o corpo preparado para futuras intervenções tecnológicas ou biológicas.
2025: uso de exoesqueleto marca nova fase
Mais de dez anos após o acidente, Laís incorporou à sua reabilitação o uso de exoesqueletos robóticos.
O dispositivo permite:
Embora o equipamento não represente recuperação motora independente, ele tem impacto importante na reabilitação física e também no aspecto psicológico.
2026: polilaminina e a esperança da regeneração neural
Em 2026, Laís passou a acompanhar de perto pesquisas envolvendo a polilaminina , molécula desenvolvida por cientistas brasileiros com potencial de estimular o crescimento de fibras nervosas.
A atleta chegou a conhecer casos de pacientes que voltaram a andar após o protocolo experimental , embora especialistas ressaltem que os resultados ainda estão em fase de estudo, especialmente para lesões crônicas como a dela.
A substância foi destaque no evento em São Paulo em que Laís voltou a aparecer de pé, ao homenagear a pesquisadora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio .
2026: um marco simbólico — de pé em público
A aparição caminhando com auxílio tecnológico, durante o prêmio Brazilian Engineering, marcou a primeira vez em 12 anos que Laís ficou de pé em público.
O momento foi descrito como simbólico e resultado da combinação entre ciência, tecnologia e reabilitação contínua.
Uma evolução sem linha reta
Especialistas apontam que o caso de Laís Souza é emblemático por reunir diferentes frentes de tratamento:
Apesar dos avanços, a lesão medular cervical ainda é considerada grave e sem cura definitiva. A evolução relatada ao longo dos anos se concentra principalmente na sensibilidade e no controle de musculatura profunda, e não na recuperação plena dos movimentos.
O presente e o futuro
Hoje, mais de uma década após o acidente, Laís mantém uma rotina rigorosa de preparação física e segue acompanhando novas possibilidades terapêuticas.
Sua trajetória evidencia que, em casos de lesão medular, a recuperação não ocorre em saltos rápidos, mas em um processo contínuo, sustentado por ciência, disciplina e acompanhamento multidisciplinar.
A cena recente em que volta a ficar de pé não representa um ponto final — mas mais um capítulo de uma jornada que ainda está em construção.
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