
A dividida e instável Terra Santa uniu-se no adeus ao Papa Francisco. O Hamas, Israel, Irã e Autoridade Palestina, com seus clérigos sunitas, xiitas, cristãos e rabinos, lamentaram a morte de quem, inimigos entre si, chamaram de “amigo”.
No domingo de Páscoa, o papa Francisco apelou por um cessar-fogo imediato em Gaza, com a libertação dos reféns e o reinício da ajuda humanitária, bloqueada por Israel desde 2 de março.
“Meu coração está dividido pelo que está acontecendo na Terra Santa, pelo poder de tanta divisão e tanto ódio”, ele escreveu em resposta a líderes judeus que lhe pediram que a Igreja Católica condenasse o massacre do Hamas, “inequivocamente”, em 2023, e distinguisse entre terrorismo e a guerra em Gaza.
A Agência France Presse de notícias ouviu palestinos cristãos em Gaza, nesta segunda-feira. “Com a morte do Papa, nós nos sentimos como se uma luz de amor e paz tenha sido apagada”, disse George Ayad, de 67 anos. Ele acrescentou: “Embora o Vaticano esteja longe, sua voz sempre alcançava nossos corações. Ele nunca deixou de pedir paz e justiça”. Outro gazense, Ibrahim al-Tarazi, declarou: “Hoje oferecemos a nossa alma pela alma do papa”.
Francisco conversava com os cristãos em Gaza quase todas as semanas, por teleconferência. O líder da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, chamou o papa de “amigo fiel do povo palestino e de seus direitos legítimos”. Ele reconheceu o Estado Palestina e içou a sua bandeira no Vaticano, da mesma forma que a Igreja Católica, antes dele, em 1993, reconheceu Israel.
O porta-voz de diplomacia iraniana, Email Baghai, disse que a República Islâmica do Irã “reza pela paz do papa”. Para o rei Abdullah, da Jordânia, Francisco foi o “Papa do Povo”. O xeque Mohammed bin Rashid Al-Maktoum, primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, destacou o “legado de humildade e unidade inter-religiosa do papa, uma inspiração para o mundo”. Para o presidente Abdel Fattah El-Sisi, do Egito, “ele foi uma voz de paz, amor e compaixão”.
O presidente israelense, Isaac Herzog, enviou “as mais profundas condolências ao mundo cristão, e especialmente às comunidades cristãs em Israel, a Terra Santa, pela perda de seu grande pai espiritual, Sua Santidade, o Papa Francisco.” E disse mais: “Um homem de profunda fé e compaixão ilimitada, ele dedicou sua vida a elevar os pobres e a pedir a paz em um mundo conturbado”.
A verdade, porém, é que as relações entre Israel e o Papa estavam em crise. Quando era o cardeal Jorge Mario Bergoglio, em Buenos Aires, ele escreveu um livro com seu amigo judeu, o rabino Abraham Skorka, com quem sempre manteve contato. Já Papa, combateu o antissemitismo como um pecado incompatível com o cristianismo. E visitou o campo de concentração de Auschwitz. E visitou Israel e colocou um pedido nas frestas do Muro das Lamentações. E peregrinou ao túmulo do sionista Theodor Herzl. Mas, então, Israel atacou Gaza, depois do massacre do Hamas que matou 1.200 pessoas nos kibutzim e aldeias do sul israelense.
O papa Francisco ligou para o presidente Herzog e lhe disse que era “proibido responder ao terror com terror”. Ao lamentar o que estava acontecendo na Terra Santa, não mencionou o Hamas. No primeiro aniversário do 7 de outubro, em 2024, ele denunciou “o pavio de ódio” acendido no ano anterior, sem dizer quem o ateou. E lamentou “o espírito do mal que fomenta a guerra”. Em novembro, ele pediu uma investigação para saber se as ações de Israel em Gaza poderiam ser consideradas um genocídio. E em dezembro, no Natal, ele condenou os ataques aéreos israelenses, durante um discurso aos cardeais no Vaticano. “Duplo padrão”, reagiu Israel.
O presidente Herzog, em seu elogio fúnebre, disse que o Papa “viu corretamente grande importância em promover fortes laços com o mundo judeu e em promover o diálogo inter-religioso como um caminho para uma maior compreensão e respeito mútuo. Realmente, espero que suas orações pela paz no Oriente Médio e pelo retorno seguro dos reféns sejam respondidas em breve. Que sua memória continue a inspirar atos de bondade, unidade e esperança”.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as noticias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:
