Jornalismo

Oinegue: chegaram ao ponto de politizar até as bactérias

A politização de produtos de limpeza depois de um alerta da Anvisa é o destaque do comentário do âncora do Jornal da Band, Eduardo Oinegue

Por Redação

REDAÇÃO

12/05/2026 • 01:47 • Atualizado em 12/05/2026 • 01:47

Depois de politizar a vacina, resolveram politizar a bactéria. Olha o ponto a que chegamos. A Anvisa está de olho na fábrica da Ipê desde 2022. Em 2024, identificou risco microbiológico na fabricação de alguns produtos. Esses produtos foram retirados do mercado. A empresa informou na época que o recolhimento tinha sido voluntário.

Em 2025, mais problemas. Dessa vez com a identificação:Pseudomonas aeruginosa, uma bactéria que preocupa a Organização Mundial da Saúde porque ela está associada a mais de 500 mil mortes por ano no mundo.

A empresa resolveu o problema? Não. Em abril desse ano, a Anvisa retornou à fábrica para quatro dias de inspeção e o relatório apontou falhas consideradas graves. Resultado: proibição da fabricação e da comercialização dos produtos afetados.

E então, o problema sanitário virou guerrinha política. Passou a circular nas redes sociais que a empresa foi autuada porque os donos apoiaram Jair Bolsonaro. É o mesmo ambiente de desinformação que já tentou desacreditar vacinas durante a pandemia.

Mas tem um problema para quem tenta sustentar essa narrativa absurda: a inspeção não foi feita só pela Anvisa. Estava junto o CVS, órgão de vigilância sanitária ligado ao governo de São Paulo comandado por Tarcísio de Freitas. Também participou a Vigilância Sanitária de Amparo.

Ou seja: três órgãos diferentes, três esferas de poder ligadas a governos com orientações políticas conflitantes, agindo juntos e chegando à mesma conclusão.

A técnica responsável pela autuação na Anvisa é farmacêutica concursada há 16 anos, certificada pela Fiocruz e pela Escola de Saúde Pública de Harvard. Nunca trabalhou para o PT. O superior hierárquico dela foi indicado ao cargo em 2022 pelo governo Bolsonaro.

Qual é a chance de Lula e Tarcísio conspirarem contra uma empresa que tem 30% do mercado para fazer perseguição política? A ideia não para em pé.

Se a empresa quer provar inocência, chama uma auditoria, chama uma perícia, faz contraprova, laudos independentes. A ciência é auditável. Sim, e abra a fábrica para os especialistas.

Vacina e bactéria não têm ideologia. Risco sanitário não escolhe um partido político para votar. É possível admirar a trajetória admirável da Química Amparo, com seus quase 80 anos de história, e ao mesmo tempo reconhecer a gravidade do que foi encontrado.

A Ipê é uma das marcas mais tradicionais do país, uma empresa brasileira que compete há décadas contra gigantes multinacionais. Mas tradição não é salvo-conduto sanitário, nem pra coisa alguma.

A função da Anvisa é identificar risco, agir preventivamente e proteger a saúde das pessoas. Misturar disputa ideológica com saúde pública não acaba bem. E transformar bactéria em bandeira política talvez seja um dos sintomas mais graves da contaminação do debate público brasileiro.

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