A história das 500 Milhas de Indianápolis é pavimentada por tijolos, velocidade e muita história. Onze anos após a sua primeira participação no oval, Tony Kanaan rompeu o jejum em 2013 em uma das edições mais emblemáticas da prova.
Porém, a relação com Indianápolis começou muito antes de Kanaan estrear na categoria. Foi moldada ao lado do pai, ainda na infância, assistindo às transmissões da Band sob o comando de Luciano do Vale. Com a perda precoce do pai, aos 13 anos, o sonho virou um promessa de vida.
""Ele colocou isso no meu prato para cuidar da minha mãe e da minha irmã e um dia ganhar as 500 Milhas. A história toda até eu conseguir chegar nos Estados Unidos... Em 98, quando subi, teve a divisão das categorias e não tive a oportunidade de correr até 2002. Eu prometi para mim mesmo: estava nos Estados Unidos desde 96 e não quis entrar dentro do autódromo porque queria entrar o dia em que fosse correr.""
Minha hora nunca vai chegar?
Após anos batendo na trave com a equipe Andretti, com um terceiro lugar em 2003 e um segundo no ano seguinte, Kanaan viu-se em um espiral de pressão psicológica a partir de 2008.
""Começa aquela pressão: 'mas será que vai dar certo? Será que um dia eu vou ganhar? Será que eu sou o cara mais azarado da Fórmula Indy?'. Aquelas coisas que você coloca na sua cabeça.""
Em 2013, já na equipe KV, a situação atingiu o limite. Sem orçamento para concluir o campeonato devido à variação cambial entre o real e o dólar, o piloto e o sócio Jimmy Vassar tomaram uma decisão drástica: concentrar os recursos apenas nas quatro primeiras etapas do ano e fechar as portas logo após Indianápolis. Para piorar, na etapa anterior, em São Paulo, Kanaan liderava até sofrer uma pane seca na última volta.
""Aquele mês [em Indianápolis], eu coloquei na minha cabeça que, infelizmente, eu teria que trabalhar em mim mesmo, que possivelmente essa vitória não iria vir. Mas, como eu sabia que era a última — eu achava que era a última —, eu ia curtir o mês de uma maneira diferente, sem muita pressão. Quando você relaxa, o resultado vem.""
Amuleto da sorte
O ponto de virada daquele mês de maio ocorreu na quinta-feira anterior à corrida, quando Kanaan recebeu um envelope nos boxes. Dentro dele estava um amuleto de proteção dado por sua mãe e por sua tia na infância, mas que o piloto havia doado três anos antes, em 2010, durante uma visita a um hospital infantil em Indianápolis.
Na ocasião, Kanaan conheceu Andrea, uma jovem de 16 anos que estava em coma devido a um aneurisma e passaria por uma cirurgia de risco no dia seguinte. Por força do hábito, ele sentiu o talismã no bolso e o entregou à mãe da garota.
""Abro o envelope em 2013 e é uma carta: 'Oi Tony, meu nome é Andrea, não sei se você lembra de mim, você entregou o amuleto para a minha mãe, eu me recuperei 100%, me formei, já vou fazer a faculdade e venho assistindo à tua luta para ganhar as 500 Milhas. Está aqui o amuleto de volta. Se Deus quiser, ele vai te trazer a vitória'. É difícil falar dessa história e não se emocionar. Se a gente vai contar que ganhar as 500 Milhas, para mim, foi um projeto pessoal, o resto que veio em torno de tudo isso, a história é muito mais legal do que a vitória em si.""
Ao cruzar a linha de chegada sob bandeira amarela, a reação de Kanaan foi imediata: apontar para o céu.
""O que passou na minha cabeça? Falei: 'Pai, a dívida está paga, eu realizei o nosso sonho, a nossa promessa, agora eu vou viver a minha vida'. Mal sabia eu que a minha vida, lógico, é o que eu vivo até hoje, que é a Indy", concluiu o piloto, cuja vitória garantiu o contrato com a Chip Ganassi no ano seguinte e estendeu sua carreira nos ovais até os 48 anos."
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