
Em 18 de novembro de 2025, Lucas di Grassi reuniu jornalistas e fãs de diversos países para a apresentação remota de um projeto revolucionário: o DGR Lola, um carro-conceito que tinha como missão ser capaz de superar a desempenho dos melhores monopostos elétricos da atualidade, mas contando com segurança e inovação , mantendo ou até melhorando os elementos esportivos e capaz de se adaptar a diferentes circuitos.
Entre os principais detalhes, o projeto criado em parceria com a Lola se destacava pela pequena asa dianteira, pelo amplo difusor traseiro (que acopla uma pequena asa traseira), pela presença de dois motores, pelas coberturas das rodas e pela ausência de radiadores laterais para resfriamento do powertrain.
O conceito pode até não sair do papel, mas veio na esteira do lançamento do Gen4, o carro que a Fórmula E adotará a partir da temporada 2026/2027 com duração inicial de quatro campeonatos. Neste cenário, impossível não pensar: será possível que o projeto apresentado por Lucas di Grassi seja o próximo carro da F-E? A resposta, provavelmente, é não.
Não chega a ser o objetivo de Di Grassi, mas a chance de o DGR Lola fazer parte dos debates nos próximos anos é real, ainda que seja apenas para oferecer ideias.
“Eu acredito que essa forme uma inspiração para o Geração 5, que é daqui quatro anos, que a gente tenha um Fórmula E que possa ser mais rápido que o Fórmula 1. Porque foi provado que dá. É uma questão mais filosófica do que técnica. Faz um Fórmula E mais rápido que o Fórmula 1 ou não? Porque o Fórmula 1 é o ápice do automobilismo. Mas será que vai ser o ápice para sempre? Se a gente fizer um carro mais rápido, como é que fica essa situação?”, analisou o piloto da Lola Yamaha ABT em entrevista ao Band.com.br .
Alberto Longo: ‘Um projeto muito atraente’
Do lado da Fórmula E, o projeto foi bastante elogiado. Alberto Longo, cofundador e diretor de campeonato da categoria elétrica, indicou à reportagem que o carro-conceito de Di Grassi merece ser analisado de maneira séria nos próximos anos.
“Todos sabemos que (Di Grassi) é um cara absolutamente inteligentíssimo e tem passado muito tempo trabalhando neste projeto. É um projeto que não é de Fórmula E, mas que obviamente (interessa), pela amizade que temos depois de tantos anos trabalhando juntos. Ele procurou a mim, a Jeff (Dodds, CEO da categoria), a Alejandro (Agag, presidente da F-E), a todos. E é um projeto muito atraente, que vimos, com a tecnologia que existe, que está testada, que está aprovada”, disse o dirigente espanhol.
Ao mesmo tempo, Longo pediu calma e lembrou que o projeto precisa do aval da FIA (Federação Internacional de Automobilismo) para que possa ser visto como de fato um potencial sucessor ao Gen4.
“Se é um projeto candidato a ser o Gen5 ou não, quem tem que definir isto obviamente é a FIA, mais do que nós. Este é um departamento da FIA, porque é quem regula tecnicamente o campeonato”, afirmou.
“Mas definitivamente vamos ver como serão as simulações, vamos ver os testes aerodinâmicos que vão começar a fazer. O que quero é ter um carro muito rápido e que encante as pessoas, que gostem muito. O que vejo de Lucas é um carro espetacular.”
Novo carro já está em andamento, diz Beth Paretta
Mas há um ponto neste discurso que praticamente encerra as chances do DGR Lola: o DGR já é um projeto pronto, enquanto a Fórmula E ainda não sabe o que precisará apresentar no próximo carro.
Segundo a vice-presidente esportiva da categoria, Beth Paretta, os planos para o Gen5 ainda dependem da estreia do Gen4 no fim de 2026 e de todo o feedback que pilotos, equipes e fabricantes vão passar. A partir daí, os projetos devem contemplar as melhorias que todas as partes quiserem buscar.
“Estamos trabalhando em conjunto com a FIA no desenvolvimento do novo carro. Para ser sincera, o desenvolvimento já está em andamento - e quando digo que já está em andamento, quero dizer que temos metas definidas para o que esperamos alcançar. Nosso foco é ter uma temporada 12 fantástica, lançar a Gen4 no início da temporada 13 e, provavelmente, assim que a bandeira verde for dada no início da temporada 13, já estaremos bem encaminhados”, explicou Paretta à reportagem.
A dirigente evitou críticas ao DGR Lola e aos próprios esforços de Lucas di Grassi e da Lola, mas indicou que o projeto foi apresentado de maneira prematura, antes que a Fórmula E soubesse o que precisa melhorar para os próximos carros.
“Esse é um projeto do Lucas Di Grassi e isso é fantástico, porque ele está muito empenhado em impulsionar a engenharia e, você sabe, ele é muito apaixonado por esse esporte. Aliás, ele conversou comigo sobre isso em Mônaco na última temporada, então eu sabia que ele já tinha algumas ideias em mente e conseguiu colocá-las no papel”, disse.
Ou seja: o DGR Lola pode até oferecer ideias para o futuro da Fórmula E, mas as chances de ser de fato o próximo carro da categoria são pequenas. A prioridade é atender às orientações que vierem nos próximos anos de pilotos, equipes e fabricantes.
“No automobilismo, a questão é que você sempre vive um pouco no futuro. Então, existe um elemento de sempre buscar o progresso. O bom é que, depois de colocar o carro na pista nas primeiras corridas, você já recebe esse feedback interno e pensa: "OK, como queremos que seja o próximo carro?", disse Beth Paretta.
“Outro elemento que sempre consideramos é o que nossos OEMs (fabricantes de equipamentos originais) precisam. Temos fabricantes nesta categoria que são cruciais para a nossa existência e para o nosso progresso. Portanto, queremos garantir que qualquer direção que tomarmos atenda às necessidades deles e os impulsione da maneira que precisam.”
Tentativa e erro para buscar o limite
De fato, o DGR Lola não nasceu com o objetivo prioritário de ser o próximo carro da Fórmula E. A ideia de Lucas di Grassi é aplicar a um monoposto elétrico o que há de melhor em tecnologias e fazer dele um carro rápido, competitivo e seguro. Ou seja: explorar limites.
“O que eu fiz com esse carro foi pegar todas as tecnologias possíveis que existem hoje e colocar em um projeto de uma maneira que faça sentido - especialmente para elétrico, que é diferente de carro a combustão, né? Hoje os elétricos são desenhados ainda de uma forma que não vai ser a forma futura. Não é a forma otimizada - é uma forma que é válida hoje, mas não é otimizada”, explicou o piloto.
“Então eu basicamente peguei esse projeto e fiz assim. Dá para a gente fazer um carro hoje que seja mais rápido que um Fórmula 1 com as tecnologias que tem, não mais caro do que o Fórmula E atual e ver se isso faz sentido, se realmente é mais rápido.”
Com as ideias em mente, Lucas di Grassi e a Lola partiram para o método tentativa e erro. Pegaram uma ideia, analisaram, tentaram uma mudança, analisaram de novo e viram o que melhorava. Até que, com as ideias que o piloto tinha e com as adaptações, chegaram ao conceito que consideraram ideal.
“Eu falei: ‘Bom, eu vou ter que desenhar o carro e testar o carro’. Então eu tive que desenhar, testar no túnel de vento, pegar esses dados, colocar na simulação e falar: ‘Dá para fazer’”, disse. “Dá para fazer, tanto que nossas estimativas são meio conservadoras e deram um um carro que dá para ser até 10 segundos mais rápido que o Fórmula 1. O sentido é ser 1 segundo mais rápido, ou pelo menos no mesmo tempo”, explicou.
Por isso, será uma surpresa se o DGR Lola aparecer na Fórmula E em 2030 - mas não será uma surpresa se algumas ideias apresentadas pelo DGR Lola forem aproveitadas no Gen5. Com a experiência do piloto brasileiro na categoria, é bastante provável que os insights oferecidos por ele sejam semelhantes ao que outros pilotos oferecerão, e mais ainda se interessarem a equipes e fabricantes. Vai depender, é claro, se os feedbacks dos próximos anos vão se aproximar das ideias de Lucas.
A tendência, acredita, é que diferentes projetos de diferentes categorias se assemelhem mais e mais a cada dia. “A Fórmula 1 já está 50% elétrica”, diz. “(E) não está se aproximando porque alguém quer. Está se aproximando porque as leis da física empurram o desenvolvimento tecnológico cada vez mais para o eletrificado.”
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