
A funcionária pública que morreu em 2008 durante um procedimento estético conduzido pelo médico José Emílio de Brito também foi perfurada na cavidade abdominal. Segundo o Instituto Médico Legal, a causa da morte de Janaína Freitas, de 35 anos, foi hemorragia interna e consequente choque hipovolêmico.
O laudo é quase idêntico ao exame de necrópsia do corpo da jovem Marilha Menezes Antunes, de 28 anos, que morreu na segunda-feira (8) durante uma hidrolipoaspiração conduzida por José Emílio de Brito. A Justiça do Rio analisa o pedido de prisão temporária de 30 dias feito pela Polícia Civil contra o médico.
Em 2017, o profissional foi condenado pelo crime de homicídio culposo a dois anos e quatro meses de prisão em regime aberto pela morte de Janaína Freitas. A pena foi substituída pelo pagamento de 10 salários mínimos para os familiares da vítima e prestação de serviços.
Na ocasião, a denúncia do Ministério Público do Rio já falava que o médico cirurgião plástico não tinha aptidão para o manuseio da cânula cirúrgica, mesmo equipamento utilizado para perfurar um dos rins de Marilha Menezes Antunes.
No documento que pede a prisão de José Emílio de Brito, o delegado Wellington Vieira afirma que o médico José Emílio de Brito lançou dados incorretos na declaração de óbito de Marilha supostamente para esconder a verdadeira causa da morte. O caso da jovem aconteceu na segunda-feira (8) na clínica Amacor, em Campo Grande, na Zona Oeste.
No laudo, o profissional fala em broncoaspiração, seguida de parada cardiorrespiratória. No entanto, o laudo de necropsia destaca que a paciente sofreu uma "lesão perfurante" atrás da cavidade abdominal e hemorragia interna causada pela ação perfurante.
O documento mostra que a lesão foi causada pelo instrumento cirúrgico chamado cânula operado pelo médico. A Delegacia do Consumidor vai indiciar José Emílio de Brito com dolo eventual, quando se assume o risco de matar.
Entre as irregularidades apontadas durante a investigação da morte de Marilha, o delegado Wellington Vieira destacou a ausência de médico anestesista durante e após a cirurgia; ausência de ambulância, banco de sangue e Centro de Terapia Intensiva.
Segundo as investigações, a vítima apresentou, antes do procedimento, quadro não recomendado para a realização da hidrolipoaspiração por apresentar anemia.
Além disso, o centro cirúrgico da clínica Amacor foi interditado após a Polícia identificar respirador aéreo manual, máscaras e medicações vencidas. O delegado Wellington Vieira destacou a "tamanha gravidade" do espaço. Duas responsáveis pelo centro cirúrgico chegaram a ser presas em flagrante na terça-feira (9), mas pagaram fiança e respondem em liberdade.
O Conselho Regional de Medicina do Rio abriu sindicância para apurar o caso.
Marilha Menezes Antunes pagou cerca de R$ 5 mil para realizar o procedimento chamado hidrolipoaspiração. A vítima deixa um filho de 6 anos.
O corpo da jovem foi sepultado na tarde de quarta-feira (10) no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador, na Zona Norte do Rio.
Mais de 100 pessoas compareceram à cerimônia, marcada por lembranças de Marilha. Ela era técnica de segurança do trabalho e atuava em uma companhia aérea no Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão.
Em nota, a clínica Amacor disse que as funcionárias conduzidas à delegacia na terça-feira (9) não foram presas e que não há indício de culpa ou de falha por parte da Amacor, que reiterou o compromisso com a transparência, ética e a colaboração com as autoridades.
O médico investigado tem um histórico envolvendo a Polícia e a Justiça.
Em 2020, uma paciente teve um processo inflamatório na região do glúteo e chegou a ficar internada por quase duas semanas. No ano seguinte, em uma clínica no Jardim América, uma paciente ficou com lesão na face após passar por cirurgia com o médico. Também em 2021, outra vítima procurou a Polícia Civil para relatar dores e dificuldade de andar.
José Emílio de Brito chegou a ser preso em flagrante em 2021, durante uma fiscalização feita pela própria Delegacia do Consumidor no consultório de propriedade do médico em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio. O espaço não tinha certificação da Vigilância Sanitária e demais órgãos públicos para realizar procedimentos estéticos.
Na ocasião, os policiais encontraram o médico atuando com aparelhos ineficientes, instrumentos cirúrgicos sujos e não esterilizados. Duas pacientes foram encontradas anestesiadas e relataram que sentiam odor de bebida alcóolica vindo do médico José Emílio de Brito, que chegou a oferecer R$ 50 mil para não ser levado à delegacia especializada.
A Polícia Civil também investiga possível desvio de conduta do profissional. Segundo as investigações, há relatos de problemas de alcoolismo. Dois depoimentos colhidos dão conta que o médico atuava no consultório próprio em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio, "entorpecido de drogas ou álcool".
Procurada, a defesa dos citados ainda não se manifestou.
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