Uma denúncia de estupro de vulnerável contra Sandro dos Santos Pereira, professor de Libras da Prefeitura de São Paulo, feita por um adolescente de 15 anos, abriu uma série de relatos de abusos cometidos por anos na comunidade surda. Após a BandNews FM revelar o caso na sexta-feira passada, mais vítimas procuraram a Delegacia de Proteção à Pessoa com Deficiência, na capital, onde novos depoimentos são esperados nesta quarta-feira.
Os episódios que iniciaram a investigação teriam durado três anos, com a primeira abordagem em 2023, na sala de aula do CEU São Rafael, quando o aluno tinha 12 anos. Ele só entendeu o que acontecia recentemente, após uma palestra sobre prevenção ao abuso sexual na nova escola."No mês de março, eles fizeram palestras sobre importunação sexual, sobre feminicídio. E ele sentiu, vendo que estava errado o que a pessoa fazia com ele, ele despertou para falar. Eles conversando no pátio da escola, um outro amigo dele, também aconteceu a mesma coisa com a mesma pessoa", conta Cibelle Bucci, mãe do menino.
Segundo o relato, Sandro se aproveitava de momentos a sós para tocar o aluno, dentro da sala de aula ou na casa dele, na zona leste. Em uma das situações, convidou o adolescente a dirigir o carro sentado em seu colo. Em outras, teria feito carícias nas partes íntimas e solicitado beijos e sexo oral.
Após a repercussão, uma professora de Libras, mulher trans e surda, decidiu relatar uma experiência vivida em 2016. Charlotte Elvira Carvalho afirma que foi vítima de abuso durante uma carona insistentemente oferecida pelo mesmo professor."Meu amigo desceu e eu fiquei ali agoniada, agoniada, sem me sentindo sem nenhuma segurança. E eu olhando para o vidro, para a janela. E o Sandro na minha perna, na minha perna começou a fazer carinho na minha perna... Sorrindo de um jeito neutro. Eu ali pensativa, agoniada, não sabia o que fazer. Suando, suando frio. E aí eu pensei, bom, qualquer coisa eu empurro assim. Deixei meio aberta a porta... Me deu vontade de sair, abrir a porta até que eu caísse na rua. Eu travei, eu fiquei mal", descreve Charlotte, traduzida pela intérprete Gyanny Vilanova.
O contato de Charlotte com Sandro começou na adolescência, por redes sociais, com elogios, mensagens insistentes e convites para a casa dele sozinha, quando ela tinha entre 12 e 14 anos. Com o tempo, o tom virou sexual, com tentativas de encontros privados. Aos 27 anos, a pedagoga explica que só entendeu o abuso após campanhas de conscientização vistas no transporte público e conversas na escola."É um trauma. Eu tinha 13 anos, 14, e essa história vem se alongando até hoje. Eu tô com 27 e essa história ainda já passou muito tempo, mas eu não consigo desabafar... Ele é famoso. Se eu falo, vão achar que é mentira minha... Precisa ter força, a gente precisa falar assim, precisa falar que acontece esses abusos e não normalizar isso. As pessoas em geral precisam dessa informação."
Sandro é conhecido na comunidade surda. Nas redes sociais, se apresenta como ator e palhaço. Ficou famoso por interpretar o hino nacional na cerimônia de posse do presidente Jair Bolsonaro, em 2018, ao lado da primeira-dama Michelle. Ele também foi candidato a deputado federal pelo PSOL em 2014 e teve mais de 9 mil votos.
Um ouvinte que prefere não se identificar reforça que o padrão de aproximação do professor é o mesmo desde, pelo menos, 2008, quando foi intérprete de Libras dele na faculdade de Direito. "Nesses dois meses que eu fiquei acompanhando ele, fazendo interpretações, tradução em Libras para ele durante as aulas, passava a mão no meu corpo, passava a mão nas minhas pernas... 'Vamos estudar agora na biblioteca'. Chegava na biblioteca só a biblioteca vazia, só tava eu e ele. Ele pedia: 'Ai, faz um sexo, vamos fazer um sexo oral'... Contava coisas que ele via no trem, pessoas com pênis ereto, contando baixarias pesadas para ver se eu caía na dele. Eu, como tinha 20 anos e precisava daquele trabalho, aguentei até quando pôde."
A Secretaria de Segurança Pública informa que o caso é investigado pela Delegacia de Proteção à Pessoa com Deficiência – única do estado –, e que os detalhes são preservados para não comprometer o inquérito.A pasta não explicou por que a sede estava fechada na segunda-feira para atender novas denúncias, quando Charlotte procurou o local. A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo diz que abriu apuração interna assim que soube do caso, mas afirma que o professor não faz mais parte da rede. Sandro foi procurado pela reportagem, mas não se pronunciou.
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