
Os vinhos e espumantes brasileiros podem ficar mais caros nos próximos anos devido à vigência do Acordo Mercosul-União Europeia e da Reforma Tributária e perder espaço para as bebidas importadas da Europa, que tendem a ficar mais baratas devido à desoneração.
O acordo comercial Mercosul-União Europeia começou a valer de forma provisória no dia 1º de maio. A medida traz impactos diretos para o bolso do consumidor brasileiro, especialmente no setor de bebidas, com a redução imediata de tarifas de importação para vinhos e espumantes europeus. Já a reforma tributária deve elevar os preços das bebidas somente a partir de janeiro de 2027, com a aplicação do “Imposto do Pecado”.
Em 2034, ano em que o Acordo Mercosul-UE estará totalmente aplicado, os vinhos e espumantes europeus estarão totalmente isentos de impostos, enquanto os produtos nacionais, terão a incidência do Imposto do Pecado, previsto na reforma tributária, conforme o seu teor alcoolico.
“Em curto prazo, a vigência do Acordo Mercosul-União Europeia é uma preocupação maior para o setor vitivinícola”, explica André Rech, executivo da Vinícola Cooperativa Garibaldi, uma das mais tradicionais do Vale dos Vinhedos, região produtora de vinhos no Rio Grande do Sul, com 95 anos de fundação “Os vinhos e espumantes nacionais já carregam, em seu preço final ao consumidor uma carga mais pesada de impostos que os vinhos importados”, explica Rech, que ésommelier. “A entrada em vigor do tratado comercial eleva a competitividade do setor”.
Hoje, o preço final de produtos nacionais conta com uma carga tributária em torno de 40% a 44% e podendo atingir patamares próximos a 50% dependendo da alíquota de ICMS, que varia de acordo com os estados. No Rio Grande do Sul, o ICMS sobre vinhos é de 17%, já em São Paulo, 25%, e no Rio de Janeiro e Mato Grosso, 37%.
A implementação definitiva do tratado comercial ainda depende de revisões jurídicas no Tribunal de Justiça da União Europeia, no entanto, o cronograma de desoneração tarifária já está sendo aplicado no Brasil, após a aprovação pelo Senado em março deste ano. O tratado está em vigor, de forma provisória, desde o dia 1 de maio.
Vinhos e espumantes importados terão imposto zero
A redução dos impostos para vinhos de mesa e champanhes segue um escalonamento gradual. A tarifa de importação, que antes era de 27% , recuou para 24% na data de entrada em vigor do acordo. A partir de 1º de janeiro de 2027, o índice cairá para 21% . A isenção total de impostos para esses produtos está prevista para 2034 , cumprindo um prazo de oito anos de reduções sucessivas estabelecido no texto do acordo.
Para os espumantes, a regra de tributação foi dividida pelo valor do produto. Rótulos considerados premium, com preço acima de US$ 8 por litro , tiveram a tarifa zerada imediatamente em maio deste ano. Já os espumantes populares seguem um cronograma de 12 anos para atingirem a isenção completa.
Apesar da preocupação, Rech lembra que a queda nos preços dos produtos importados da Europa não são instantâneas e o repasse das novas alíquotas depende de fatores como a renovação dos estoques das importadoras e a variação do câmbio. “Mas o setor vitivinícola nacional também vem se preparando há alguns anos, investindo em inovações e tecnologias que elevam a qualidade do vinho e do espumante brasileiro”, diz Rech. “O próprio consumidor está ficando mais exigente em relação à qualidade das bebidas”.
O consumo de vinhos no Brasil registrou um crescimento expressivo no último ano, de 41%, contrariando a tendência da média global, que apresentou uma queda de 2,7% no mesmo período. De acordo com dados da Associação Internacional da Vinha e do Vinho, os brasileiros consumiram 4,4 milhões de hectolitros da bebida, o equivalente a 586 milhões de garrafas de 750 ml.
Apesar do aumento expressivo, o consumo anual por habitante no país ainda varia de duas a três garrafas, volume que permanece abaixo da média mundial e não posiciona o Brasil entre os 20 maiores consumidores por habitante. Além do mercado brasileiro, apenas o Japão registrou crescimento na procura pela bebida.
Na América do Sul, mercados tradicionais recuaram: o Chile reduziu sua produção em 25% nos últimos cinco anos, e a Argentina enfrenta uma forte queda no consumo. O Brasil, em contrapartida, aumentou sua produção em 80% e expandiu a área plantada em 10%.
Para atrair mais consumidores e aproximar o consumo dos vinhos nacionais, a Garibaldi está promovendo degustações em resorts no estado de São Paulo. Em maio, Rech apresentou pelo menos quatro rótulos da marca para hóspedes do Matiz Spa Igaratá, localizado na cidade de Igaratá, no Vale da Mantiqueira. “A ideia é realizar esta troca de informações e explicações para o consumidor ampliar mais o conhecimento e a apreciação de bons rótulos que são produzidos aqui no país”.
Qualidade dos vinhos nacionais
A Cooperativa Vinícola Garibaldi investiu em inovação e tecnologias de ponta para enfrentar a competitividade no setor e ainda, driblar as mudanças climáticas e seus efeitos sobre os vinhedos. A cooperativa mantém um vinhedo experimental para identificar variedades de uvas que mantenham a produtividade e a identidade enológica da Serra Gaúcha. Os vinhos da região possuem selo de Indicação Geográfica (IG) e Denominação de Origem (DO).
O projeto foi iniciado em 2019 na cidade de Santa Tereza, onde a cooperativa cultiva cerca de 60 variedades de uvas em uma área de quatro hectares. O vinhedo abriga cultivares originárias de países europeus, como Portugal, Itália, Espanha, Hungria, Grécia, Ucrânia, Romênia, e República Tcheca . O cultivo é feito sob condições controladas para permitir uma análise técnica precisa do desempenho agronômico de cada variedade. "O projeto avalia como as plantas se adaptam aoterroir(conjunto de fatores como solo e clima) local', explica Rech.
O local, inserido em uma área de serra, não foi afetado pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.
Um dos destaques são as uvas Irsai Oliver , uma variedade húngara adaptada ao sul do Brasil e base para a elaboração do vinho Garibaldi In Veritas Irsai Oliver , uma bebida leve e refrescante, de coloração amarelo-palha com reflexos esverdeados. Destaca-se pela intensa expressão aromática, com notas de flores brancas, lichia, manga e um delicado toque moscatel. O rótulo conquistou quatro medalhas de ouro no Bacchus 2026 – Concurso Internacional de Vinhos, Vermutes e Espirituosos . O tradicional evento foi realizado em Madri, na Espanha, em março deste ano. “É um fato inédito um vinho brasileiro conquistar uma pontuação tão elevada, em um concurso na Europa, concorrendo com outros 1490 rótulos de 14 países”, diz Rech.
Com altos investimentos em inovação e tecnologias, o setor corre para conquistar definitivamente o paladar dos consumidores brasileiros. “Os vinhos e espumantes do Vale dos Vinhedos não deixam nada a perder para os importados”. O enólogo Ricardo Morari ressalta que o processo integra o comportamento no campo com o alinhamento de mercado. "Conseguimos entender quais uvas têm potencial real para originar novos rótulos", destaca.
Espumantes sem álcool, uma tendência crescente
Para elevar a competitividade, a Garibaldi também está surfando em uma nova onda, a de espumantes sem álcool. Este tipo de bebida deixou de ser um nicho restrito para se transformar em um atrativo de mercado interessante. “Atende à demanda das novas gerações [Gen Z], pessoas de religiões que não permitem a ingestão de álcool e a população fitness”, explica Rech.
No Brasil, o segmento de bebidas sem álcool deve registrar um crescimento de 10% nas vendas entre 2024 e 2028, um ritmo de expansão que, globalmente, fica atrás apenas do registrado nos Estados Unidos. Os espumantes zero álcool sustentam o avanço e abocanham cerca de 5% do volume total do mercado nacional de espumantes. Globalmente, os vinhos desalcoolizados representaram, 59,6% do mercado. Os dados são da consultoria internacional IWSR.
Atualmente, no varejo brasileiro, existem em torno de 25 rótulos de espumantes sem álcool. Alguns são vinhos que passam pelo processo de desalcoolização após a fermentação. “Ainda é um processo que exige um investimento alto, em torno de R$ 3 milhões”. No caso da Garibaldi, a elaboração do espumante é feita a partir do suco de uva ou mosto doce, que são filtrados, pasteurizados e gaseificados artificialmente sem passar por qualquer processo de fermentação. “Neste caso, não há nenhum porcentual residual de álcool na bebida, já que não passa pela fermentação”. afirma Rech. "Pela legislação brasileira, estes produtos são considerados "suco integral gaseificado" ou "bebida de uva gaseificada" e não terão incidência de qualquer imposto por álcool".
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