
O cacau faz parte da história econômica do Brasil, principalmente da Bahia, é um produto valorizado (e desejado) em todo o mundo, mas nos últimos anos, a sua produção caiu, em todos os países do mundo e a consequência direta dessa queda foi sentida no bolso dos cosumidores: o chocolate, que tem o cacau como a principal matéria-prima, está ficando cada vez mais caro.
Por ser uma commodity, o preço do cacau é definido de acordo com a oferta mundial e as bolsas de valores. As altas expressivas do produto, nas bolsas de Nova Iorque e de Londres, tem uma relação direta com os problemas da lavoura, mais especificamente, das lavouras africanas.
Os países da África Ocidental são os principais produtores de cacau do mundo, mas pragas e doenças agrícolas estão prejudicando a produção. O aumento dessas pragas deve-se, principalmente, às mudanças climáticas, que estimulam surtos de bactérias e vírus que atacam o cacaueiro e ainda causam seca ou excesso de chuvas nas áreas de plantio.
A situação é especialmente crítica em Gana e na Costa do Marfim , que, juntos, são responsáveis por cerca de 60% de toda a produção mundial de cacau . Nos últimos dois anos, o valor da amêndoa mais que quadruplicou, saltando de aproximadamente US$ 2.500 por tonelada em janeiro de 2023 para mais de US$ 10.000 em 2025, impactando diretamente os custos da indústria chocolateira.
O Brasil já foi, em décadas passadas, o maior produtor de cacau do mundo, mas devido a uma praga, a Vassoura de Bruxa , as lavouras foram devastadas e a produção caiu vertiginosamente. Nos últimos anos, o sistema de produção de cacau no Brasil mudou e hoje, o foco é um cacau de melhor qualidade, cultivado em agroflorestas e voltado ao mercado ‘premium’. Atualmente, o cacau é produzido em larga escala na Bahia, Rondônia, Espírito Santo, mas também na região do Matopiba, São Paulo e Tocantins.
Crise climática e doenças: a tempestade perfeita
O principal motor por trás da escalada de preços é a chamada "inflação climática". Condições climáticas extremas, intensificadas por fenômenos como o El Niño, têm causado estragos consecutivos nas safras africanas. Períodos de chuvas intensas e fora de época prejudicaram a floração dos cacaueiros, e, sem flores, não há desenvolvimento dos frutos.
Além da instabilidade climática, os ventos secos e fortes vindos do deserto do Saara, conhecidos como Harmattan, também contribuíram para a redução da produtividade. Essa combinação de fatores cria um ambiente propício para a proliferação de doenças que ameaçam o futuro da cacauicultura na região.
Um dos maiores vilões é o vírus do broto inchado do cacaueiro (CSSV, na sigla em inglês), uma praga que está dizimando plantações. Transmitido por pequenos insetos conhecidos como cochonilhas, o vírus pode levar à perda de até 50% da colheita e, em casos mais graves, matar a planta em poucos anos. Gana perdeu mais de 254 milhões de cacaueiros nos últimos anos devido à doença.
Um problema estrutural no campo
A crise atual expõe problemas estruturais que afetam a produção de cacau há anos. A cacauicultura na África Ocidental é caracterizada, em grande parte, por pequenas propriedades com baixa tecnologia e manejo agrícola pouco adequado. Muitas plantações estão envelhecidas, com árvores que já passaram de seu pico de produtividade.
A falta de investimento no cultivo e os baixos preços pagos aos produtores ao longo dos últimos anos desestimularam a renovação das lavouras e a aplicação de fertilizantes e defensivos, tornando as plantações ainda mais vulneráveis a pragas e doenças. Esse cenário, somado às dificuldades logísticas e conflitos regionais, agravou o déficit na oferta global.
O impacto no mercado e no consumidor
Com a oferta em queda pelo terceiro ano consecutivo e uma demanda que se mantém aquecida, o mercado global enfrenta um déficit estimado em mais de 400 mil toneladas de cacau. Esse desequilíbrio transformou a amêndoa em um ativo disputado, atraindo também a especulação de investidores e fundos de hedge, o que impulsiona ainda mais as cotações nas bolsas de valores.
Para o consumidor, o resultado é um chocolate mais "salgado" nas prateleiras. A indústria, embora adote estratégias para absorver parte dos custos, não consegue evitar o repasse do aumento para o preço final de ovos de Páscoa, barras e bombons. No Brasil, que apesar de ser o 6º maior produtor mundial ainda depende da importação para suprir sua demanda interna, o impacto é direto no orçamento das famílias.
Diante de um cenário de preços elevados, a tendência é que os consumidores busquem alternativas mais acessíveis ou até mesmo repensem o consumo, valorizando outras formas de celebração. Enquanto produtores e empresas se adaptam a essa nova realidade, a crise do cacau acende um alerta sobre a sustentabilidade e os desafios impostos pelas mudanças climáticas à produção de alimentos em escala global.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as noticias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:
