
Ana Paula Renault se sagrou como a grande campeã do BBB 26 e conquistou o prêmio de R$ 5,7 milhões. Mas os últimos dias da ex-sister na casa também foram tensos, uma vez que ela recebeu a notícia de que o pai, Gerardo Renault, morreu aos 96 anos . Ela decidiu permanecer no reality show, e rapidamente se tornou alvo de críticas nas redes sociais, com comentários que iam na linha de “ela preferiu o dinheiro ao pai”. Mas, afinal, existe alguma cartilha para se viver o luto?
O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker, destaca que as cinco fases do luto --negação, raiva, barganha, depressão e aceitação --foram amplamente divulgadas nos protocolos médicos, tendo sido descritas inicialmente não para o luto pela perda de terceiros, mas para pacientes em estado terminal.
Entretanto, além de frisas que este processo não acontece necessariamente de forma linear, ele também explica que o modelo é hoje visto como incompleto, pois existem diversas variantes, como o luto traumático, o recusado e o adiado.
“Hoje a gente pensa que existem variantes de luto. O luto que, de alguma forma, não encontra condições objetivas e subjetivas para prosseguir, e que funciona como um conjunto heterogêneo de tarefas psíquicas, de questões que se colocam, que vão sendo articuladas ao modo de uma espécie de colcha de retalhos, em que você tem ali os pedaços e precisa juntar para formar alguma unidade, né, e que frequentemente você descobre que tem pedaços faltando, tem buracos que sobram, tem fragmentos excedentes”, ressalta o especialista em entrevista ao Band.com.br.
Dunker detalha que uma ideia central é que os lutos se encadeiam. A forma como alguém lidou com perdas anteriores antecipa como reagirá às próximas. E o luto não se restringe à morte de pessoas: ele envolve a perda da saúde, de um estilo de vida, de um relacionamento, de um ideal ou até de uma pátria. É um dispositivo genérico de simbolização.
“A gente simboliza pelo luto, a gente subjetiva pelo luto. Então, por exemplo, quando os modernistas dizem ‘ah, o Brasil é uma cultura antropófaga porque ela come os outros’, eles estão dentro de uma teoria do luto. Eles estão tentando pensar a cultura a partir dessa gramática de simbolização que a gente chama de luto”, exemplifica ele.
Lidar bem ou mal com a morte?
Dunker também afirma que a ideia de lidar “bem” ou “mal” com a morte pode ser enganosa, uma vez que quem expressa o luto de forma mais visível, como por meio do choro, pode estar processando melhor a situação de quem age de forma mais contida.
Isso se deve muito ao fato do luto ser um processo contínuo, com uma mesma pessoa vivendo vários lutos ao longo da vida, e a forma como ela lidou com essa dor anteriormente e a articula em relação a seus projetos futuros faz toda a diferença.
“Como temos essa sequência de lutos, é meio traiçoeiro olhar para o que está acontecendo ali na hora e dizer 'olha, essa pessoa está vivendo muito emocionalmente o luto, ela está chorando, ela está assim inconformada, isso é ruim', enquanto outra pessoa vai dizer 'olha, parece que não foi comigo, eu fui à missa de sétimo dia, mas não senti nada, não me abalou mesmo sendo uma pessoa muito próxima’. Daí você vai ver clinicamente, às vezes aquele que reagiu de uma forma mais espetacular está conduzindo melhor o seu luto do que aquele que dissociou. As diferenças são clinicamente contraintuitivas”.
Por isso, é importante sempre analisar o contexto no qual o indivíduo está inserido e de onde ele está vindo para tentar compreender a reação a um luto específico.
Como o BBB pode afetar um luto?
Dunker ressalta que o luto não tem hora marcada e que quanto mais inesperado, mais difícil é sua elaboração.
“Elaborar o luto é elaborar as diferenças e as divisões causadas por aquela mesma pessoa, por aquele mesmo objeto que a gente perdeu”, explica o psicanalista.
Por mexer com o emocional dos participantes, o BBB também se aplica no debate como sobre como contexto impacta o luto. Mas, mais do que isso, o professor destaca o julgamento enfrentado por Ana Paula diante da exposição pública causada pelo programa.
Ele critica a tendência da sociedade de "moralizar" o luto alheio, julgando as escolhas da participante de ficar no reality. Questionar se a pessoa "ama mais o dinheiro ou o pai" ignora o desejo daquele que se foi.
“Quando a gente moraliza o luto, como quando se diz assim: 'Ah, não, mas você foi culpada, você não estava lá na hora que ele morreu'. Olha que desfeita. 'Você não ama tanto assim essa pessoa porque você não se mobilizou'. Quando a gente moraliza o luto, é o primeiro passo para ele não caminhar bem, né. Quando a gente opina, né, desavisadamente sobre o luto alheio, é o primeiro passo para, para a gente atrapalhar o luto alheio. Quando a gente acha menos importante estar junto, apoiar, seguir o caminho, seguir o tempo daquela pessoa. Nem todo mundo vai reagir ali à perda na missa de sétimo dia”.
Dunker diz que luto coloca em xeque o nosso narcisismo: devemos focar na dor que estamos sentindo ou no testamento e desejo de quem se foi?
“Há muitos esportistas que perdem o pai e que vão para o jogo no dia seguinte. 'Ah, que desalmado, ele não, ele não foi afetado'. Pelo contrário, ele pode estar dizendo e se perguntando: 'Nessa situação, o que que meu pai realmente queria que eu fizesse? Ah, eu vou seguir isso’. E veja que isso leva para um conjunto de consequências imensas do plano... do ponto de vista jurídico, da herança, do testamento, as últimas palavras”, conclui.
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