
Os Estados Unidos decidiram revogar, nesta terça-feira (4), o visto da chefe da Embaixada do Brasil em Washington , Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida acrescenta mais um degrau na escalada da crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos, mas deixa dúvidas sobre o que a suspensão significa na prática.
A decisão foi comunicada à imprensa por um funcionário do Departamento de Estado e é vista como uma ação de retaliação. Os Estados Unidos afirmam que o visto pode ser restabelecido caso o Brasil dê aval ao nome indicado por Donald Trump para a Embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez —mesmo antes de a decisão tramitar pela Câmara norte-americana.
Em nota, o governo brasileiro repudiou a alteração do visto da diplomata e declarou que a decisão não é "fato isolado". "Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo", diz o texto.
Embaixadora passa a ser residente ilegal?
Uma das dúvidas mais frequentes ligadas ao status da diplomata é se, com a alteração no visto, sua circulação no país torna-se ilegal. O advogado Marcelo Godke, especialista em direito internacional empresarial, explica que não há ilegalidade na permanência de Viotti no país. Para entender a decisão, é preciso diferenciar dois conceitos do direito norte-americano sobre o tema: o visto e o status migratório.
“O visto permite viajar ao país e solicitar a entrada. Já o status migratório é o que define as condições e o período em que a pessoa pode permanecer após ser admitida”, explica. Os dois critérios são decididos de forma separada por meio de um registro de admissão. Isto é suficiente, até o momento, para regularizar a situação migratória de Viotti.
Diplomatas são admitidos de acordo com parâmetros diferentes dos de turistas, por exemplo, e estão sob um regime chamado de Duration of Status (ou D/S). Na prática, isso significa que a permanência é autorizada enquanto houver condições que justifiquem o exercício da missão diplomática.
Diplomata será expulsa dos EUA?
Não, a diplomata não será expulsa do território dos Estados Unidos e nem enfrentará restrições de circulação. O próprio Departamento de Estado dos EUA afirmou, por meio da AP News, que a retirada do visto não implica em mudanças na validade da permanência.
Segundo o funcionário do órgão, Viotti pode continuar vivendo no país. O que muda é que, enquanto a mudança estiver em vigor, a embaixadora fica impedida de exercer as funções diplomáticas.
“Trata-se de uma situação bastante incomum”, explica Godke. “Os Estados Unidos invalidam o visto, mas toleram sua permanência física no território, ao mesmo tempo em que suspendem, na prática, sua atuação oficial”, reforça.
Maria Luiza deixou de ser embaixadora?
A revogação do visto não anula o cargo ao qual Viotti foi nomeada. “O cargo é conferido pelo Estado brasileiro, não pelo governo norte-americano. Ela somente deixará de ser embaixadora se o Brasil decidir removê-la, substituí-la ou convocá-la de volta. Os Estados Unidos podem deixar de reconhecê-la como representante diplomática ou impedir o exercício de suas funções, mas isso não equivale à perda automática do cargo”, explica Godke.
Contudo, há uma brecha. A Convenção de Viena de 1961, que fixou normativas para o exercício de cargos diplomáticos, prevê a possibilidade de um representante ser declarado pelo país em que está como persona non grata. Caso isso aconteça, o Estado de origem é obrigado a convocar o representante de volta ou encerrar suas funções. Até o fechamento deste texto, isso não aconteceu.
Quais as consequências para a diplomata?
Mesmo sem perda do título ou da legalidade do status migratório, a revogação do visto traz consequências negativas e deixa Viotti num “limbo diplomático cuidadosamente administrado”, como define Godke.
Por exemplo: caso saia do território dos Estados Unidos, ela pode não conseguir retornar com o mesmo documento —a menos que o visto tenha sido restabelecido ou se houver uma autorização nova. “Portanto, não há ilegalidade migratória nem obrigação imediata de retorno ao Brasil”, diz o advogado.
“Ela continua autorizada a permanecer fisicamente nos Estados Unidos, mas está politicamente impedida de exercer plenamente sua representação oficial. Esse cenário poderá mudar apenas se houver uma declaração formal depersona non grataou outra decisão posterior das autoridades americanas”, pontua.
Quais são os impactos na relação Brasil e EUA?
Para o advogado, a repercussão dessa medida nas relações diplomáticas entre os países é "profundamente negativa". Ele critica a condução atual da política externa brasileira, destacando a falta de capacidade necessária para resolver impasses e desenrolar negociações mais eficazes.
Ele também enxerga que a situação envolvendo a revogação do visto brasileiro de dois diplomatas dos Estados Unidos soa como uma relutância em permitir a observação internacional da corrida eleitoral. "Essa postura tem gerado sinais de desaprovação por parte das autoridades americanas. A falta de destreza diplomática compromete severamente o relacionamento bilateral, conduzindo a uma escalada de tensões altamente prejudicial aos interesses do Brasil."
No fim de julho, o governo brasileiro negou o pedido de visto de entrada para Riley Barnes, secretário-assistente de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho do Departamento de Estado americano, e seu adjunto, Samuel Samson . Ligados ao secretário de Estado do governo Donald Trump, Marco Rubio, os dois diplomatas pretendiam viajar ao Brasil com o pretexto oficial de tratar de "liberdade de expressão nas eleições".
No entanto, o Ministério das Relações Exteriores vetou a missão diplomática após identificar que o objetivo real do grupo era levantar questionamentos e contestar a confiabilidade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro. A suposta intenção também foi exposta em uma reportagem do The Washington Post .
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