Jornal da Band

Trauma da guerra faz crianças perderem a fala na Faixa de Gaza

Cerca de 1 milhão de menores de idade necessitam de apoio psicológico no território palestino

FELIPE KIELING

16/05/2026 • 11:03 • Atualizado em 16/05/2026 • 11:03

Gaza
Gaza - Foto: Divulgação/UNRWA/WHO

Além do rastro visível de milhares de mortes e infraestrutura destruída, os mais de dois anos de ataques israelenses na Faixa de Gaza deixaram uma sequela psicológica profunda e silenciosa: traumatizadas pela violência contínua, inúmeras crianças palestinas perderam a capacidade de falar.

De acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 1 milhão de menores de idade necessitam de apoio psicológico no território palestino. A exposição contínua à violência fez explodir os diagnósticos de mutismo infantil .

Embora o silêncio possa ser causado por fatores físicos, como lesões na cabeça ou danos neurológicos provocados pelo impacto de explosões, na maioria das vezes não há ferimento visível. O trauma psicológico de perder familiares, amigos e o próprio lar é suficiente para paralisar a fala.

"“O que acontece não é uma escolha, não é um processo racional, é um processo automático e a gente pode entender isso com a neurobiologia da sobrevivência. Nesse momento, funções mais elaboradas do cérebro ficam em standby, e a linguagem é uma dessas funções”, explicou a psicóloga Amanda Amude."

Especialistas e correspondentes internacionais alertam que o desafio em Gaza vai muito além de reerguer prédios e hospitais. Há uma geração inteira sendo destruída psicologicamente. No momento, o sistema de saúde mental no território está em completo colapso, e o processo de recuperação promete ser lento.

Para que essas crianças voltem a falar, será necessário um esforço prolongado de acolhimento. "Isso pode ser restabelecido não com o final da guerra, não com pressão, mas com acolhimento. Com tempo, e com a sensação de segurança e previsibilidade, esse cérebro vai voltar a funcionar como funcionava antes disso tudo acontecer", conclui a psicóloga Amanda Amude.

Os números da guerra ajudam a desenhar a dimensão da tragédia humanitária e o tamanho da devastação na região. Na resposta de Israel após os ataques terroristas do Hamas, que vitimaram 1,2 mil judeus em 2023, 73 mil palestinos foram mortos na Faixa de Gaza. Desse total de vítimas dos bombardeios israelenses, mais de 20 mil eram crianças. Atualmente, mesmo com um cessar-fogo em vigor na região, ataques pontuais ainda acontecem, o que impede que a população sinta que o perigo real passou.

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