A recente prisão da influenciadora Deolane Bezerra , suspeita de envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro para uma das maiores facções criminosas do país, coloca em evidência como a vida de luxo pode ser usada como fachada para o crime organizado.
Com quase 22 milhões de seguidores apenas no Instagram, Deolane é um exemplo de "máquina de engajamento". O padrão de conteúdo segue uma receita que viraliza facilmente: mansões, veículos de luxo, viagens exclusivas e itens de moda com preços exorbitantes. Esse tipo de postagem é altamente valorizado pelas plataformas digitais, que lucram com o tempo de permanência e a interação dos usuários.
O papel do algoritmo e a psicologia social
O algoritmo das redes sociais não realiza um julgamento de valor sobre a natureza do conteúdo publicado. Segundo o pesquisador em inteligência artificial, Paulo Silvestre, o sistema prioriza apenas a capacidade de engajamento. "Para o algoritmo, tanto faz se a publicação é legítima, legal ou se é um crime; o que interessa é o índice de interação", explica.
A estrutura das plataformas é desenhada para "espiar" o comportamento do usuário — desde o que é curtido até os hábitos de consumo — para prender a atenção do público por períodos cada vez mais longos. "O algoritmo não mostra apenas o que você quer ver, mas o que mantém você conectado o suficiente para esticar a sessão", destaca Leonardo Bursztyn, especialista em marketing digital.
Além da tecnologia, há um componente sociológico no fenômeno. De acordo com o sociólogo Maurício Ramos, a ostentação cria uma "falsa sensação" de que qualquer um pode alcançar aquele padrão de vida, transformando objetos de desejo em símbolos de poder que muitas vezes ignoram os limites éticos e legais.
Crime organizado utiliza influenciadores para lavar dinheiro
As autoridades apontam que essa busca incessante por visibilidade tem sido estrategicamente aproveitada por organizações criminosas. O crime organizado identifica perfis com grande alcance para recrutar influenciadores, utilizando a atividade profissional como uma "maquiagem" para movimentações financeiras suspeitas.
O delegado-geral Artur Dian reforça essa dinâmica. "O crime procura esse tipo de pessoa por conta da artificialidade da profissão", afirma. Segundo o delegado, a natureza do trabalho dos influenciadores, que envolve transações vultosas com marcas e clientes, facilita a ocultação de valores ilícitos, tornando figuras públicas peças-chave em complexos esquemas de lavagem de dinheiro.
Newsletter Notícias
Inscreva-se na nossa newsletter e receba as noticias mais importantes do dia direto no seu e-mail.
Selecione os seus temas favoritos:
