Jornalismo

Como stalking pode causar danos psicológicos às vítimas

Perseguição sistemática de uma pessoa se tornou crime em 2021, mas vítimas ainda têm dificuldade em encontrar Justiça

Luiza Lemos

LUIZA LEMOS

03/04/2025 • 15:22 • Atualizado em 03/04/2025 • 15:22

Stalking é uma prática criminosa e cada vez mais popular no Brasil
Stalking é uma prática criminosa e cada vez mais popular no Brasil - Foto: Reprodução/Freepik

Desde janeiro deste ano, a psicanalista Kaká Ribeiro sente medo, e vive em uma constante sensação de que é vigiada e difamada nas redes sociais. Ela, que é presidente de uma organização contra wooling - o bullying entre mulheres - se tornou vítima de stalking após falar sobre o assunto nas redes sociais.

“Ouvi falar de uma mulher que ‘stalkeava’ 15 mulheres aqui no Mato Grosso do Sul. Ela fazia calúnia, difamava e perseguia com contas falsas. Fiz um vídeo sobre e ela viu. A partir daí, ela começou a me ameaçar e a perseguir também”, conta.

Kaká conta que a stalker contata amigos, familiares e outras pessoas da rede de contatos dela para difamá-la. “Tive que fechar os comentários das minhas redes sociais. Ela começou a ir atrás dos meus contatos e tem mais de 30 perfis falsos”, diz.

A psicanalista, que diz até ter medo de sair de casa e chegar a encontrar com a agressora, é vítima da prática cada vez mais popular no Brasil. Só em 2023, foram mais de 77 mil casos de stalking contra mulheres, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

A prática é crime desde 2021, após a criação do artigo 147-A do Código Penal. A pena para a prática é de reclusão de seis meses a dois anos e multa e pode ter ela aumentada por razões da condição do sexo feminino, como prevê a Lei Maria da Penha.

Apesar de ser tipificado apenas em 2021 no Código Penal, a advogada Anne Colnaghi afirma que o “stalking” já era previsto na Lei das Contravenções Penais. “É a infração de ‘Perturbação à Tranquilidade’, por ameaçar a capacidade de locomoção e invadir a esfera de liberdade e privacidade”, pontua. Anne afirma que o stalking pode ocorrer em vários contextos. “Em relações amorosas, ambiente de trabalho, no ambiente familiar e até mesmo entre ex-empregados e seus antigos empregadores”, diz.

Segundo a advogada especialista em gênero, Mayra Cardozo, a perseguição vivida por Kaká pode ser configurada como stalking. “O crime é a perseguição de alguém, com ou sem contato direto, causando medo, sofrimento psicológico e constrangimento. Vale para mensagens insistentes, aparecimentos ‘coincidentes’ e vigilância constante, inclusive no ambiente digital”, afirma.

Mesmo com o crime tipificado em lei, Kaká sente dificuldade de conseguir agir contra a stalker. “Entramos com um boletim de ocorrência, fomos atrás do Ministério Público por júri e calúnia, mas ninguém consegue pará-la. O processo demora e, até termos um resultado, ela assassina reputações, faz violência psicológica e acaba com os outros”, lamenta.

Stalking pode causar danos psicológicos

Além de Kaká Ribeiro, outras mulheres, inclusive famosas, sofrem com stalking. A influenciadora Mariana Sampaio denunciou uma mulher que a perseguia com 150 perfis na internet, desde 2021. Em um relato nas redes sociais, a psicanalista conta que chegou a ter uma piora na saúde mental devido à perseguição contra ela e familiares.

O Band.com.br tentou contato com Mariana Sampaio, mas a equipe da influenciadora disse que o assunto ainda dispara gatilhos mentais nela. A situação de Mariana e de Kaká podem causar efeitos psicológicos extensos, como afirma a psicóloga do Grupo Reinserir, Letícia Pizarro.

"Desde medo e preocupação contínuos até quadros de ansiedade, crises de pânico e episódios depressivos. Os efeitos também podem se estender no âmbito social e econômico - Letícia Pizarro."

O excesso de tentativas de contato e de comunicação podem causar ansiedade. “A prática é violenta, essa tentativa, que causa medo e preocupação constante, dá a sensação de risco potencial”, diz.

A prática de stalking também pode causar isolamento social nas vítimas, segundo a psicóloga. “Elas criam mecanismos para diminuir as agressões, como redução do que se expõe nas redes sociais, contato com amigos, familiares e colegas de trabalho nos ambientes digitais, além de mudança de rota de deslocamentos cotidianos, alteração de atividades da agenda e diminuição da frequência de socialização em espaços públicos”, explica.

Foi o que ocorreu com Kaká. Ela conta que deixou de publicar muitos conteúdos nas redes sociais por dois meses. “Tentei ficar mais quieta para não passar para o meu público o que estava acontecendo e ver se ela parava, mas as mensagens continuaram”, conta.

Caso sinta essa ansiedade constante e seja vítima de stalking, a psicóloga sugere procurar a rede de apoio, seja familiares ou amigos e um profissional de saúde mental. “É fundamental contatar a rede de apoio, para entender que a vítima está sendo perseguida e poder tomar as medidas qualificadas”, pontua.

Como saber que está sofrendo stalking?

A prática de stalking tem alguns padrões, segundo as advogadas Anne Colnaghi e Mayra Cardozo. “Monitoração das redes sociais, envio repetido de mensagens, ligações frequentes, tentativas de seguir a vítima, seja fisicamente ou on-line são alguns dos sinais”, explica Anne.

Mayra pontua que digitalmente, o stalking pode usar as redes sociais como ferramenta de perseguição. “Curtidas obsessivas, DMs insistentes, criação de perfis falsos para monitoramento, envio de conteúdo ameaçador ou invasão de privacidade - são formas claras de violência”, lista.

A advogada indica que não se pode deixar a situação escalonar e causar ainda mais medo. “Se te causa medo, incômodo ou você sente que perdeu o controle sobre sua própria vida, não ignore. Isso não é exagero, não é drama, é violência. E merece resposta”, pontua.

Caso a pessoa persista na prática de stalking, as advogadas sugerem que a vítima vá atrás de uma medida protetiva de urgência. “É possível pedir até a prisão preventiva. O sistema de justiça precisa ser célere e firme para proteger a vítima - e cobrar isso também é um ato de resistência”, diz Mayra.

Será que você comete stalking?

Muitas vezes o interesse por alguém pode se tornar stalking. A psicóloga do Reinserir Letícia Pizarro afirma que os comportamentos repetitivos com intenção de acessar a privacidade de outra pessoa podem acontecer devido a situações e contextos variados, que desencadeiam esses comportamentos violentos.

Mas é sempre preciso avaliar se é necessário mesmo saber detalhes da vida privada de alguém e entender quando esse comportamento passa a ser nocivo. “É importante questionar a necessidade de ter acesso à vida privada da vítima, e quais fatores ou situações contribuíram para o indivíduo perder o controle e repetir sistematicamente atos de perseguição”, pontua.

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