Jornalismo

Brasileiros estão mais preocupados em causar ciúmes do que em tratar o sentimento

Levantamento da Sala Digital mostra que o Google virou confessionário do amor possessivo — e que o passado dos parceiros anda assombrando o presente dos relacionamentos

Bárbara Fava

BÁRBARA FAVA

25/05/2025 • 17:21 • Atualizado em 25/05/2025 • 17:21

Se a terapia de casal parece cara, o brasileiro recorre ao que está mais à mão: o Google. E o que as pessoas andam digitando na barra de busca mais famosa do mundo revela muito sobre nossos amores, nossos dilemas... e nossos surtos.

A Sala Digital, parceria entre Band e Google, levantou os dados de busca sobre ciúmes no último ano na maior ferramenta de pesquisa do mundo. O levantamento escancarou um comportamento curioso (ou preocupante?): as pessoas querem saber como fazer ciúmes, bem mais do que como lidar, controlar ou tratar esse sentimento. E, no meio disso tudo, um termo em específico vem ganhando força nas pesquisas: ciúme retroativo .

Fazer ciúmes ainda é mais popular que lidar com ele

Quando se trata de ciúmes, o brasileiro não está exatamente buscando cura — está buscando método. Segundo o levantamento, no comparativo de buscas ao longo de um ano, a expressão "como fazer ciúmes" está muito acima do que "como lidar com ciúmes", "como controlar ciúmes" e "como tratar ciúmes" .

Ou seja, ainda reina a lógica do "se está doendo em mim, vai doer em você também". A ideia de provocar o parceiro, testar limites ou “ensinar uma lição” parece mais atrativa do que simplesmente administrar a insegurança. E o Google, claro, vira um campo de batalha amoroso silencioso — mas cheio de intenções.

O passado te condena — e seu parceiro também

Outro dado que chamou a atenção foi o crescimento nas buscas por ciúme retroativo , especialmente entre 2022 e 2024. O termo, também conhecido como ciúme retrospectivo , define aquele sentimento de desconforto constante com o passado amoroso e sexual do parceiro. Não é sobre o que a pessoa faz agora — é sobre o que ela já fez, anos atrás, muitas vezes antes mesmo de conhecer o atual companheiro.

O aumento dessa busca contrasta com a estabilidade nas pesquisas por “ciúmes” de modo geral ou “ciúme patológico”. Isso sugere que as pessoas estão começando a nomear melhor seus conflitos emocionais — e talvez estejam entendendo que nem todo ciúme é igual. Ou seja: se você sente um calor no peito quando alguém curte a foto do seu namorado, é uma coisa. Mas se você não consegue parar de pensar em uma ex-namorada de 2015, a conversa é outra.

É normal sentir ciúme retroativo? Psicologia responde

De acordo com a psicóloga Marina Vasconcellos, especialista em terapia de casal, o ciúme retroativo está geralmente ligado à baixa autoestima e à insegurança. “A pessoa sente que está em desvantagem em relação a histórias do passado do parceiro. É como se estivesse competindo com fantasmas”, explica em entrevista à BBC Brasil.

O transtorno pode se tornar patológico quando interfere na vida cotidiana do casal, levando a cobranças, desconfianças e até comportamentos obsessivos. Nestes casos, o recomendado é buscar ajuda psicológica — e não apenas jogar o nome da ex do parceiro no Google (ou pior: no Instagram).

Segundo a APA (Associação Americana de Psicologia), sentimentos de ciúmes são comuns, mas tornam-se prejudiciais quando baseados em suposições, idealizações ou distorções cognitivas. O ciúme retroativo se enquadra bem aí: muitas vezes, não é a realidade que machuca, mas a história inventada a partir de fragmentos do passado.

O Google escuta, mas não aconselha

O fato de o Google estar sendo usado como um “confessionário” emocional revela um comportamento típico da nossa era digital: buscamos respostas rápidas para emoções complexas. Por isso, é sempre bom lembrar que, embora os dados nos mostrem tendências, o buscador não substitui a escuta de um terapeuta, nem oferece diagnóstico, nem orientação emocional.

A pesquisa pode até mostrar que o termo “como fazer ciúmes” é o mais procurado, mas talvez a pergunta que realmente mereça atenção seja outra: por que a gente sente tanta necessidade de provocar ou controlar o outro?

No fim das contas, sentir ciúmes é humano. Entender o que está por trás dele — e, principalmente, buscar formas saudáveis de lidar com isso — é o que pode transformar um relacionamento.

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