Jornalismo

Brinquedos Estrela: como crise financeira reacendeu a infância brasileira

Pedido de recuperação judicial fez brasileiros resgatarem lembranças de ícones como Autorama, Susi, Falcon e Banco Imobiliário

Lucas Machado

LUCAS MACHADO

21/05/2026 • 03:01 • Atualizado em 21/05/2026 • 03:01

Brinquedos da Estrela marcaram gerações e seguem na memória afetiva
Brinquedos da Estrela marcaram gerações e seguem na memória afetiva - Foto: Estrela Brinquedos/Divulgação

Fundada em 1937, em São Paulo, a Estrela nasceu em uma pequena oficina de bonecas de pano criada pelo imigrante alemão Siegfried Adler. Décadas depois, a empresa se transformaria em uma das marcas mais conhecidas da cultura popular brasileira. Em muitos momentos, crescer no Brasil também significou crescer ao lado de algum brinquedo da Estrela.

Existe uma geração inteira que aprendeu a perder dinheiro antes mesmo de ter conta bancária. Bastava abrir o Banco Imobiliário. Em poucos minutos, surgiam alianças improváveis, brigas por terrenos e negociações que atravessavam a tarde inteira, enquanto alguém insistia em comprar a Avenida Paulista pela terceira vez. Em muitas casas brasileiras, crescer também significava aprender o barulho das notas de papel sendo distribuídas ao redor da mesa.

A história da Estrela nunca foi apenas sobre brinquedos. A marca acabou ocupando um espaço muito maior dentro da cultura brasileira. Durante décadas, ajudou a construir hábitos familiares, manhãs de Natal, aniversários e lembranças que continuam atravessando gerações.

O assunto voltou ao centro das conversas nesta quarta-feira (20), depois que a fabricantes de brinquedos Estrela informar ter entrado com pedido de recuperação judicial na Comarca de Três Pontas (MG). A notícia provocou reação imediata nas redes sociais: mais do que falar de números ou mercado, muita gente passou a compartilhar memórias ligadas aos brinquedos da marca.

O Autorama talvez explique isso melhor do que qualquer campanha publicitária. Antes de o videogame dominar as salas, acelerar carrinhos em pistas elétricas parecia tecnologia de outro planeta. O som metálico dos carros saindo da curva transformava qualquer apartamento em autódromo improvisado. Tinha criança que passava mais tempo montando a pista do que correndo. Tinha pai que fingia ajudar o filho apenas para brincar também.

O Genius apareceu em outro momento importante. Os anos 1980 começaram a transformar aparelhos eletrônicos em símbolo de modernidade, e aquele brinquedo colorido parecia uma mistura de videogame, computador e teste de paciência. Muita gente descobriu, pela primeira vez, que a memória também podia cansar fisicamente.

Já a Susi acompanhou mudanças profundas no comportamento brasileiro. A boneca mudou de roupa, profissão, cabelo e linguagem ao longo das décadas. Em alguns períodos, parecia refletir exatamente o ideal feminino mostrado em novelas e revistas. Em outros, tentava acompanhar novas formas de independência e representação dentro do universo infantil.

O Falcon virou quase um objeto mítico para muitas crianças dos anos 1970 e 1980. Não era apenas um boneco articulado. Era um personagem inteiro pronto para ganhar vida dentro do quarto. Tinha gente que levava o Falcon para o quintal, enterrava na terra, colocava dentro d’água e transformava qualquer canto em missão de sobrevivência.

Comandos em Ação carregava outra energia: mais acelerada, mais militarizada e diretamente influenciada pelos filmes da época. Em muitos casos, o brinquedo funcionava quase como continuação das explosões e perseguições que dominavam o cinema dos anos 1980.

A Super Massa seguia caminho oposto. Não dependia de pilha, tela ou tecnologia. O prazer estava justamente em criar, misturar cores improváveis, desmontar tudo e começar de novo. Era uma brincadeira menos ligada ao resultado final e mais conectada à bagunça e ao improviso.

O Jogo da Vida também marcou uma geração inteira. Casamento, salário, filhos, faculdade e aposentadoria apareciam dentro de um tabuleiro colorido que tentava resumir o imaginário de sucesso de uma época. Algumas crianças escolhiam profissões no jogo sem imaginar que, décadas depois, ainda se lembrariam disso.

A força desses brinquedos também está ligada ao tempo em que surgiram: um Brasil em que brincar ainda ocupava espaço físico dentro da casa. O chão virava pista, a mesa da cozinha se transformava em cassino imobiliário improvisado e os quartos acabavam tomados por peças espalhadas.

Talvez seja justamente por isso que a notícia sobre a recuperação judicial da Estrela tenha provocado tanto impacto emocional. Para muita gente, a marca não representa apenas produtos, mas uma lembrança concreta de uma infância analógica, coletiva e barulhenta —distante da relação silenciosa e individual das telas atuais.

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