
É impossível ir a um jogo do Corinthians e não ser impactado pelo momento em que a arquibancada parece se mover como um único organismo. O som é inconfundível: "Poropopó, po, po, po, po...". Mais do que um grito de guerra, a manifestação se tornou um ritual de irmandade alvinegra, com uma história que viaja dos circos europeus até o Japão, passando pelo Rock in Rio.
Das Lonas de Circo às Arquibancadas
A origem da melodia é nebulosa, mas historiadores apontam que ela nasceu na Europa, servindo de trilha para espetáculos de circo. No Brasil, a música ganhou contornos populares no Rock in Rio de 1985, quando o público entoou uma paródia controversa.
No futebol, a entrada do "Poropopó" tem um capítulo curioso de intercâmbio entre torcidas. Originalmente adaptada pela Raça Rubro-Negra, do Flamengo, a música chegou à Gaviões da Fiel através da amizade entre as organizadas. Foi no Campeonato Paulista de 1987, num jogo contra o São Paulo, que a Fiel abraçou a canção definitivamente. Embora o título não tenha vindo naquele ano, a arquibancada ganhou o que muitos consideram hoje um "segundo hino".
A Física da Emoção
O que torna o "Poropopó" único não é apenas a letra provocativa — "Corinthians veio pra vencer, e o [adversário] pra perder" — mas a coreografia. Os torcedores se abraçam lateralmente, formando correntes humanas que se deslocam para a esquerda e para a direita, antes de explodirem em pulos verticais.
Nos primórdios, a sincronia era caótica. Relatos de torcedores antigos lembram de tombos coletivos e até de calças caindo no meio da euforia. Hoje, o movimento é tão coordenado que pode ser explicado pela física. Como descreve um professor especialista, trata-se de uma "onda mecânica transversal": enquanto a massa se desloca horizontalmente (eixo X), ela também oscila verticalmente (eixo Y), gerando uma energia visualmente impressionante.
Combustível em Todos os Momentos
A manifestação transcende a festa; ela é combustível tático. O canto esteve presente em momentos de glória absoluta, como no Mundial de Clubes de 2012, no Japão, onde até os locais, sem entender nada, entraram na roda alvinegra.
Mais recentemente, em 2024, o ritual serviu de escudo. Durante a luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro, jogadores e torcida se uniram no "Poropopó" após as vitórias, simbolizando a resistência e a virada de chave que garantiu a permanência na elite e uma vaga na Libertadores. O astro holandês Memphis Depay, recém-chegado, não só participou como utilizou a estética da torcida em produções visuais, provando o apelo internacional da festa.
"Um Abraço Coletivo"
Para a Fiel, o "Poropopó" é a materialização do corinthianismo. É o momento em que as diferenças sociais desaparecem e todos — "o pobre e o rico, o preto e o branco", como define um torcedor — se tornam iguais, abraçados pelo mesmo ideal.
Seja provocando o rival com o que a torcida chama de "ofensa respeitosa", seja celebrando um título da equipe feminina ou masculina, a regra é clara: se você é corinthiano e está no estádio, na hora do "Poropopó", ninguém fica de fora do abraço.
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