Nenhum time brasileiro surpreendeu mais do que o Barra em 2026 . O clube de Balneário Camboriú já impressionou no Campeonato Catarinense e na Copa do Brasil deste ano - chegou na 4ª fase e vai enfrentar o Volta Redonda nesta quinta-feira (19). Além disso, o Barra tem uma estrutura que chama atenção , com Centro de Treinamento e estádio modernos. Mas de onde sai o dinheiro para tudo isso? O Band.com.br conversou com o presidente do clube, Bene Sobrinho, para entender e explicar melhor.
O Barra existe desde 2013, mas o projeto atual começou em 2020. Foi quando começou o investimento do exterior. E o maior sucesso veio nos últimos 7 meses:
Apesar desse sucesso do time principal, o foco do projeto é na formação de jogadores. O CT foi criado com esse objetivo.
"O CT foi planejado para formar e desenvolver atletas jovens. E temos tudo que é necessário. Não estou falando com soberba ou arrogância, mas é o que tem de melhor hoje. Você vai em CT da Série A e vê que nós temos tudo igual"
A declaração de Bene é corroborada por informações, imagens e números: o CT pode alojar 120 jovens, tem 4 campos, academia completa, Centro de Ensino, tudo que é necessário para nutrição e vestiários específicos para base e profissional. Além disso, o estádio fica ao lado e tem capacidade para 5 mil pessoas, com espaço para ampliação.
A estimativa é que todo complexo custou cerca de R$ 80 milhões.
De onde vem o dinheiro do Barra?
O investimento feito no Barra vem da Alemanha. O clube é uma "Ltda" (sociedade empresarial limitada) e pertence à Braho Administração de Bens. Por sua vez, a Braho recebe investimentos da Hobra, empresa alemã.
"É um grupo de investidores da Alemanha que tem dado segurança para a gente cumprir nosso planejamento financeiro. É um grupo muito pequeno de pessoas. Dá para dizer que é apenas um grande investidor, mas ele tem outros parceiros em torno dele. Eles compraram o clube em 2020 e assumiram tudo", explica Bene, que cuida da gestão administrativa do Barra.
A Hobra também investe em um time português, o Acadêmico de Viseu, que atualmente briga pelo acesso na 2ª divisão portuguesa. Alguns jogadores do Barra já saíram para Portugal, como o meia Marquinho e os zagueiros Bruno Ramos e Kauã Oliveira.
A intenção é exportar mais jogadores para Portugal ou para um time alemão ligado ao “dono” do Barra: Dietmar Hopp construiu o crescimento do Hoffenheim e ainda atua no clube.
Doações e polêmicas do investidor do Barra
Dietmar Hopp se tornou bilionário porque é um dos fundadores da SAP, importante empresa de tecnologia. A partir da década de 90, ele começou a investir no Hoffenheim. Tirou o time das divisões de acesso e se firmou na Bundesliga. Fez aportes para contratações e para construção de estrutura, inclusive CT e estádio.
O problema é que, na Alemanha, existe uma forte resistência contra empresários que controlam totalmente os times. Inclusive há uma regra que proíbe que esses investidores detenham mais de 50% do clube.
Hopp conseguiu ser uma exceção durante muito tempo. A Bundesliga permitiu o controle total, alegando que ele já tinha investido no time por mais de 20 anos. Mas essa exceção não foi bem aceita por torcedores.
Adversários levaram faixas com críticas a Hopp e até paralisaram partidas. Posteriormente, a torcida do Hoffenheim também pediu para que ele se afastasse. E Hopp atendeu. Atualmente ele está mais distante do clube, que cumpre a regra dos 50%.
Apesar dessa polêmica no futebol, Hopp também é conhecido por ser um dos maiores filantropos da Alemanha. Ele tem uma fundação que já doou mais de 1 bilhão de euros para causas sociais, especialmente na área da saúde. Em um dos movimentos mais marcantes, Hopp chegou a transferir cerca de 70% de sua fortuna para a fundação que organiza essas doações.
Só dinheiro não basta
Além da estrutura, um ponto forte do Barra é o planejamento. E Bene Sobrinho explica que as dificuldades do passado geraram essa organização interna.
"Ao longo desses 13 anos, a gente jogou a Série C e a Série B do estadual em um ambiente sem controle. Nós tínhamos uma casa alugada, que era o campo do Marcílio. Mas já jogamos em Ibirama, em Brusque e no campo do Barroso. A gente se acostumou e nunca ficou reclamando, porque a gente sempre planejou e organizou ano a ano. Muito desse sucesso do Barra vem da organização e do planejamento de pessoas que trabalham com os pés no chão", comenta Bene.
Apesar do investimento alto em estrutura, Bene diz que a folha salarial e a verba para contrações não são altas: "Na Série D, dos 32 times que passaram de fase, nós tínhamos um dos menores orçamentos. Muita gente olha de fora e pensa que tem um mega investimento. Mas é só em patrimônio, em coisas sólidas. A gente não vai ficar concorrendo com clubes de um maior patamar financeiro", explica o presidente.
Com o acesso para a Série C, é natural que o Barra aumente esse investimento. Mas Bene diz que tudo já estava planejado e não haverá “loucuras”.
Qual é o futuro do Barra?
Bene explicou que o Barra não tem intenção de virar SAF para atrair mais investidores. "Vamos continuar como Ltda. Tem pequenas diferenças na tributação, mas não atrapalha a gente. A gente não vê vantagem em virar SAF".
Em relação ao time, o foco está na busca por um novo técnico, pois Eduardo Souza recebeu proposta do Atlético-GO e saiu. Bene já definiu o perfil: "O novo treinador do Barra vai ter alguma relação com base. Precisa ter coragem de lançar um menino de 17 ou 18 anos em um jogo decisivo, se isso for o melhor".
Além dos desafios em campo, o Barra tem uma dificuldade: criar torcida própria. Todos times jovens têm esse problema. Mas recentemente o clube atingiu a marca de 2 mil sócios e tem conseguido alcançar as cidades mais próximas - o clube representa Balneário Camboriú, mas o CT e o estádio ficam em Itajaí. Uma parte de Camboriú também apoia o Barra.
"Dos 2 mil sócios, 800 são de Balneário Camboriú, 400 são de Camboriú e quase 400 são de Itajaí. Depois tem outros espalhados em mais cidades e estados", contou Bene.
O futuro do Barra também passa pela concorrência local, que está fraca - Figueirense e Joinville foram rebaixados no Catarinense . O Avaí vive entre crises financeiras. E a Chapecoense subiu para a Série A de 2026, mas também tem poucos recursos e está cumprindo uma Recuperação Judicial.
Bene destaca uma diferença que vai além das finanças: "Esses clubes de Santa Catarina têm muitos conselheiros torcedores. E se a chapa deles não ganha, até torcem contra o clube. É uma loucura. E o Barra não tem essa loucura. Está longe disso, então teoricamente fica mais fácil".
Com investimento, estrutura e essa tranquilidade, o Barra tende a ir mais longe ainda. Pode deixar de ser surpresa e virar favorito em breve.
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