
As quartas de final da Copa Libertadores terão dois confrontos entre brasileiros e argentinos: Palmeiras x River Plate e Flamengo x Estudiantes. São partidas que expõem a grande diferença econômica entre os clubes desses países. O elenco do Palmeiras vale quase o dobro do River , por exemplo. É um assunto que envolve política e o presidente argentino Javier Milei.
A diferença financeira já se refletiu em campo. O futebol brasileiro foi campeão das últimas seis edições da Libertadores , desde 2019, com Flamengo (2019 e 2022), Palmeiras (2020 e 2021), Fluminense (2023) e Botafogo (2024).
Sara Carsalade, co-founder da vertical de esportes da Somos Young, diz que o mercado brasileiro está em evolução, com iniciativas como as SAFs, a profissionalização da gestão, e o uso de tecnologia e dados para melhorar processos: “Hoje existe uma disparidade econômica do futebol brasileiro em relação ao argentino. Essas medidas extracampo influenciam no resultado de campo".
Política, Milei e "SAFs"
Desde que se tornou candidato à presidência da Argentina, em dezembro de 2023, Javier Milei vem deixando claro seu desejo de constituir a entrada das SADs (Sociedade Anônima Desportiva) no país, equivalente às SAFs (Sociedade Anônima do Futebol) do Brasil.
No final do último ano, Milei discursou na feira agroindustrial Expoagro, num dos principais eventos da época em Buenos Aires, e revelou que o Grupo City tinha interesse em comprar grandes clubes da Argentina.
"É um investimento monumental. Ou preferem continuar nessa miséria, onde cada vez mais temos um futebol de pior qualidade?"
Em julho deste ano, Milei usou as redes sociais para elogiar o futebol brasileiro e falar da transformação dos clubes argentinos em SAFs (SADs, na Argentina), após a eliminação de Boca Juniors e River Plate ainda na primeira fase da Copa do Mundo de Clubes. As críticas também foram um ataque ao presidente da Federação Argentina de Futebol, Claudio Tapia, que é contra esse tipo de gestão no país.
“Nem River, nem Boca. Sem argentinos no Mundial de Clubes. O Brasil foi com quatro times, os quatro passaram. Até quando teremos que apontar o fracasso do modelo Chiqui Tapia? Um campeonato frágil, com 30 times, sem competitividade, sem SAD, sem incentivos. Não está a altura do tremendo público argentino que lota estádios ao redor do mundo. Insisto, Chiqui Tapia e seu minúsculo círculo fazem mal ao futebol argentino", reclamou Milei.
Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana e que gerencia a carreira de centenas de atletas, a derrocada dos clubes argentinos também é fruto de um longo processo que combinou por décadas à depreciação econômica do país, e condena a proibição quanto a essas transformações. "Em qualquer sociedade que se apresente como livre, não cabe mais justificar proibições como essa que defende a confederação. Até na Venezuela o ambiente de negócios e administração dos clubes de futebol é hoje mais propenso a desenvolvimento. Quem defende o atual regime é quem extrai benefício próprio da política neles, e do seu caráter associativo, como se dava no passado com os maiores sindicatos".
Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, especializada no gerenciamento da carreira de atletas, elogia as SAFs, mas destaca que é necessário ter boa gestão: "A transformações dos clubes em SAF em todo o mundo, e o Brasil é uma prova recente disso, retratam que é um caminho sem volta de investimentos dentro e fora dos campos, e um sinal de esperança não apenas para os chamados grandes, mas também aos menores, que passam a contar com novas receitas para incrementarem seus elencos e estruturas. É preciso, no entanto, boa gestão. Alguns clubes sul-americanos têm seguido esse caminho, mas é uma minoria. A partir do instante em que isso se tornar uma realidade, principalmente aos argentinos, creio que o nível de competitividade terá um efeito maior de equilíbrio".
O River Plate, adversário do Palmeiras, encontrou uma alternativa: entrou na Bolsa de Valores da Argentina com a criação do Club River Plate Financial Trust. Na prática, qualquer interessado, seja pessoa física ou empresa, podem investir no clube com 12 mil pesos.
Com seu estádio recém-reformado e recebendo mais de 80 mil pessoas em dias de grandes jogos, potencializando suas receitas e negócios, a ideia do River Plate ao entrar na Bolsa de Valores é de captar mais de 15 milhões de dólares, e usar esse dinheiro exclusivamente para melhorias no departamento de futebol, incluindo as categorias de base.
Já o tradicional Boca Juniors não se envolve no assunto. A indiferença de virar SAF por parte do Boca Juniors tem a ver também com ligações políticas. Em meados de 2024, o Governo da Argentina havia liberado o capital privado no futebol argentino a partir de novembro deste ano, autorizando a transformação em Sociedades Desportivas (SADs). Mas o principal entrave para essa mudança está na briga com Claudio Tapia, eterno presidente da Associação do Futebol Argentino - e que vem conseguindo mobilizar os clubes mais tradicionais do país, como o Boca Juniors, fazendo com que essas medidas cautelares acabem parando na Justiça e barrando essa liberação.
Para o educador financeiro e diretor da Multimarcas Consórcios, Fernando Lamounier, o problema do Boca Juniors e de outros clubes argentinos em relação à discrepância de valores de receitas pode ser explicada, principalmente, pela diferença no modelo de gestão, estrutura de governança e tamanho do mercado esportivo em cada país: "Outro fator importante é a distinção na estrutura das competições e premiações. Enquanto no Brasil a organização e o aporte financeiro de torneios como a Copa do Brasil e o Brasileirão criam um ambiente competitivo e atraente para investidores, na Argentina os torneios ainda enfrentam problemas de organização e baixos níveis de monetização. Isso reflete na capacidade de distribuir prêmios mais robustos e de estimular o crescimento econômico dos clubes".
Diferença pode ficar maior?
Cristiano Caús, sócio fundador responsável pela área de Direito Desportivo na CCLA Advogados, explica que uma mudança pode aumentar a diferença entre os times desses países: "O Brasil é sabidamente o país mais rico da América do Sul e o futebol brasileiro é o resultado dessa condição. E a diferença com nossos 'hermanos' será ainda mais acentuada com o advento da Liga, mas para isso é necessária uma conversão de interesses dos dois movimentos hoje existentes em prol de um mesmo futebol nacional".
Em 2025, porém, os argentinos terão uma boa chance para voltar aos títulos. São 4 times nas quartas de final: Vélez Sarsfield, Estudiantes, River Plate e Racing. Pelo lado brasileiro, Flamengo, Palmeiras e São Paulo seguem na disputa. A LDU, do Equador, é a "instrusa" entre os outro classificados. Pelo menos um argentino chegará na semi, pois Vélez e Racing se enfrentam.
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