
Quando o tema é automobilismo, existem dois pilares principais e históricos no planeta: o europeu e o americano. Ímola, Monza, La Sarthe e Silverstone são apenas alguns dos exemplos de clássicos circuitos do velho continente, mas em apenas um lugar a cultura dos ovais predomina.
Desde as primeiras corridas de carros no final do século XIX até o surgimento de grandes categorias como a Indy e a NASCAR, esse formato de pista se tornou a base da competição nos Estados Unidos. E para entender o porquê, é preciso voltar para as raízes do automobilismo norte-americano.
Dos hipódromos às primeiras corridas de carros
A tradição dos circuitos ovais nos Estados Unidos começou muito antes do automobilismo. Em 1780, William Whitley construiu no condado de Lincoln, no Kentucky, uma pista circular usada para corridas de cavalos. O traçado estabeleceu o padrão de sentido anti-horário.
Com o surgimento do automóvel, esses espaços passaram a receber também competições motorizadas. A primeira corrida organizada de carros em um oval nos Estados Unidos ocorreu em 7 de setembro de 1896, no Narragansett Park, em Cranston, Rhode Island. Disputada em uma pista de terra de uma milha originalmente usada para trote, a prova reuniu milhares de espectadores e marcou o início do uso sistemático de ovais no automobilismo.
No início do século XX, as corridas em ovais ganharam estrutura mais profissional. Um dos marcos mais importantes foi a construção do Indianapolis Motor Speedway em 1909, no estado de Indiana. O circuito de 2,5 milhas foi criado para testar automóveis e receber grandes eventos.
Em 1911, sediou a primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis, corrida que rapidamente se transformou em um dos eventos mais importantes do esporte a motor mundial.
Nesse período também surgiram os chamados board tracks , pistas feitas de madeira inspiradas nos velódromos de ciclismo. O primeiro foi inaugurado em 1910, em Los Angeles, com curvas inclinadas que permitiam velocidades muito altas. Apesar da popularidade, esses circuitos acabaram desaparecendo no final da década de 1920 devido aos altos custos de manutenção, riscos de incêndio e problemas de segurança.
Boom dos ovais nos Estados Unidos
Com o declínio das pistas de madeira, as corridas voltaram a se concentrar em circuitos de terra. Durante as décadas de 1920 e 1930, centenas de pistas foram utilizadas em feiras e autódromos locais por todo o país.
Essas competições se tornaram populares especialmente durante a Grande Depressão, quando eventos baratos atraíam grandes públicos. Corridas com carros midget e stock cars ajudaram a consolidar o oval como o formato dominante do automobilismo americano.
Paralelamente, entidades começaram a organizar o esporte. A American Automobile Association criou em 1909 o Contest Board para regulamentar corridas e campeonatos nacionais. Mais tarde, em 1956, o United States Auto Club (USAC) assumiu parte dessa organização após mudanças estruturais no automobilismo americano.
O crescimento das corridas em ovais também está ligado à criação da NASCAR em 1947, que padronizou as competições de stock cars que já aconteciam em diversas pistas do sul dos Estados Unidos.
Na década de 1960, o sucesso da categoria e a chegada da televisão impulsionaram um grande boom de construção de circuitos. Entre os exemplos mais importantes está o Daytona International Speedway, inaugurado em 1959, que passou a sediar a Daytona 500.
A expansão moderna dos ovais
Nos anos 1990, outro período de expansão ocorreu com o crescimento da popularidade da NASCAR. Grandes contratos de televisão aumentaram a visibilidade do esporte e incentivaram a construção de novos autódromos.
Entre os exemplos estão o Texas Motor Speedway e o California Speedway, ambos inaugurados em 1997. Muitos desses circuitos também receberam iluminação permanente para permitir corridas noturnas, o que aumentou o alcance televisivo e o interesse do público.
Por que a IndyCar passou a correr mais em circuitos mistos
Entretanto, embora os ovais tenham moldado a história do esporte no país, mudanças nas últimas décadas, como questões de segurança, evolução dos carros e transformações no interesse do público, fizeram com que a Indy passasse a utilizar cada vez mais circuitos mistos e urbanos em seu calendário.
No início dos anos 2000, a categoria ainda tinha forte presença de ovais. Em 2003, por exemplo, o campeonato contava com 16 corridas — todas em pistas desse tipo. No calendário de 2021, apenas três provas foram disputadas em ovais. Em 2022, o número subiu para quatro em um total de 17 corridas. Já em 2026, seis em 18 provas.
Um dos fatores para essa mudança foi a queda de público em algumas pistas ovais. Diversos eventos passaram a registrar forte diminuição de espectadores em comparação com os anos 1990.
O oval de Michigan chegou a atrair cerca de 78 mil torcedores em seu auge, mas em 2007 nem metade disso. Em Phoenix, o público caiu de 60 mil pessoas em 1995 para cerca de 6 mil em 2005. Já a corrida de Fontana teve 50 mil espectadores em 1997, mas apenas cerca de 5 mil na última edição, em 2015.
A principal exceção continua sendo as 500 Milhas de Indianápolis , que seguem atraindo grandes multidões ao autódromo com capacidade para aproximadamente 300 mil pessoas.
Outro motivo importante para a mudança está ligado à segurança. As corridas em ovais costumam ter velocidades médias mais altas e grande proximidade entre os carros, o que pode aumentar o risco de acidentes graves.
Nos últimos 20 anos, várias mortes na categoria ocorreram em corridas disputadas nesse tipo de pista. Entre os pilotos que perderam a vida em acidentes em ovais estão Greg Moore, Tony Renna, Paul Dana, Dan Wheldon e Justin Wilson. Além deles, pilotos como Robert Wickens sofreram lesões graves em acidentes nesse tipo de circuito.
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