Fórmula 1

S do Senna: como símbolo de Interlagos manteve Brasil no mapa da F1

Entre 1989 e 1990, autódromo de São Paulo passou por obras que tiraram do Rio de Janeiro a etapa brasileira da Fórmula 1 graças ao traçado que faz referência ao ídolo nacional; conheça a história

EMANUEL COLOMBARI

04/11/2025 • 21:12 • Atualizado em 04/11/2025 • 21:12

S do Senna ; Autódromo de Interlagos
S do Senna ; Autódromo de Interlagos - Foto: Emanuel Colombari/Band

O helicóptero Esquilo HB350B, prefixo PT-HJN, pousou no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, pouco depois das 10h de 1º de fevereiro de 1990, uma quinta-feira. Dele, Ayrton Senna desceu vestindo uma camisa de mangas curtas, calça, tênis e o inconfundível boné azul com a marca do banco Nacional .

A missão de Senna naquela manhã não era levantar o público com uma vitória, mas vistoriar as obras do circuito. O piloto era um dos padrinhos das obras no traçado, que menos de dois meses depois receberia o Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 em meio a algumas intensas disputas políticas.

Senna x Prost: São Paulo no circuito

No cenário esportivo, Senna não engolia a derrota para Alain Prost no Mundial de pilotos de 1989. Ao canal de TV francês La Cinq, disse acreditar que a disputa teria sido manipulada a favor de seu companheiro de McLaren. O presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Jean Marie Balestre, ameaçava revogar a licença de Senna, deixando o brasileiro fora da temporada de 1990.

No cenário nacional, São Paulo voltava a receber a Fórmula 1 depois de nove edições consecutivas do GP do Brasil (1981 a 1989) no Autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro - que, por sua vez, perdera a primazia após divergências dos políticos locais com o chefão da categoria, Bernie Ecclestone . Para isso, ainda em 1989, a prefeita de São Paulo, Luiza Erundina (PT), anunciou uma ampla reforma no Autódromo de Interlagos - uma ideia que surgiu em outubro daquele ano, após conversa de Erundina com o então presidente da CBA (Confederação Brasileira de Automobilismo), Piero Gancia .

Para manter o Brasil no calendário da F1

Na ocasião, Gancia participara de uma reunião na sede da Fisa (Federação Internacional de Esporte a Motor) em Paris, que apontava para as dificuldades de manter o Rio no calendário. Para que o Brasil não ficasse fora da F1, o dirigente ligou para a prefeita de São Paulo, que correu atrás de patrocinadores que bancassem a reforma de Interlagos.

“O Brasil estava fora da agenda da FIA por não haver autódromo no Brasil com as condições de segurança - no ano anterior, houve um acidente no autódromo lá do Rio de Janeiro e um piloto ficou paraplégico com um acidente por falta de segurança daquele autódromo”, lembrou Erundina, atualmente deputada federal (Psol-SP), ao Band.com.br . O piloto era o francês Philippe Streiff, da AGS.

“E não havia no Brasil nenhum outro autódromo em condições de receber o Grande Prêmio, o Brasil ficaria fora. Então, eu fui abordada por Piero Gancia, que era o representante do Brasil na FIA, para saber se eu teria condições de colocar o Autódromo de Interlagos em condições de segurança e de modernidade, capaz de receber o Grande Prêmio.”

Não seria uma missão simples. Erundina procurou empresas que eram parceiras da Prefeitura de São Paulo para avaliar a viabilidade de uma parceria nas obras. A Shell topou investir os valores - avaliados em cerca de US$ 3,5 milhões na época - para receber terrenos para postos em contrapartida, pagando à cidade um percentual do faturamento. A construtora Vega-Sopave ficou encarregada do projeto, que teria poucos meses para ser concluído.

“A minha área jurídica fez um parecer favorável, era absolutamente legal, e eu firmei esse compromisso com a Shell”, contou a ex-prefeita. “Eu não gostava de corrida de automóvel, mas eu intuí que seria bom para São Paulo. Firmei o contrato com a Shell, a Shell garantiu que faria as reformas nesse prazo e, portanto, o Brasil seria incluído na agenda (da F1) daquele ano de 1990. Foi esse o processo que se deu, e eu banquei e não me arrependo. Até hoje a cidade se beneficia.”

S do Chico Landi

A primeira ideia em São Paulo era reduzir o traçado (então com pouco mais de 7.873 m), mas preservando a longa ligação entre as curvas 1 e 2, ambas para a esquerda, na saída dos boxes. Mas Bernie Ecclestone não queria: diante do crescimento da popularidade da Fórmula Indy, inclusive no Brasil, o dirigente queria descaracterizar o trecho entre as duas curvas e o antigo retão para evitar a possibilidade de uma prova da categoria norte-americano no anel externo do autódromo, com características de oval. E conseguiu.

A Prefeitura de São Paulo contou com a consultoria de diversos pilotos para projetar o novo circuito. Nomes como Ayrton Senna, Roberto Pupo Moreno e Piero Gancia foram ouvidos. E coube a Senna sugerir uma sequência de curvas na saída dos boxes em forma de S, mas em alta velocidade. Na época, sugeriu que o trecho se chamasse S do Chico Landi, em homenagem ao primeiro piloto brasileiro a correr na F1 - foi voto vencido.

“A equipe da FIA vinha investigar, vinha fazer a averiguação, se de fato as coisas estavam dando em termos técnicos e de prazo, capaz de assegurar a realização do Grande Prêmio aqui na cidade. E o Senna visitou, me cumprimentou pela iniciativa, e inclusive ele influenciou quando da discussão do traçado. Foi porque eles estabeleceram um novo traçado do autódromo, né? E foi aí que ele incluiu a a a um um traçado com a com a letra o S”, descreveu Erundina. “É uma marca da passagem do Sena, no momento dentro da reforma do autódromo, o que é mais um fator de prestígio para nossa cidade.”

Conexão com Senna

Na hora da estreia do traçado, Ayrton Senna mostrou ter se entendido rapidamente com as novas linhas, dominando as sessões e conquistando a pole position. Liderava a corrida e poderia ter vencido com facilidade, mas acabou quebrando a asa dianteira após um toque com a Lotus de Satoru Nakajima, que era retardatário. Entrou nos boxes, trocou o bico do carro e voltou, mas sem o mesmo downforce. Terminou em terceiro, com Alain Prost (Ferrari) em primeiro e Gerhard Berger (McLaren) em segundo.

Embora o nome “S do Senna” não tenha se tornado uma unanimidade imediata, caiu no gosto de pilotos, jornalistas e fãs em pouco tempo. Desde então, tornou-se o ponto mais emblemático do circuito - é dali que o público pode acompanhar intensas disputas por posições no fim da reta dos boxes, e que não raro se prolongam até a Descida do Lago.

“O S do Senna virou um ícone de Interlagos. Hoje é um lugar dos mais procurados pelos fãs. A gente tem que comemorar - a gente não tem mais o Senna entre nós, mas temos um marco dele aqui registrado no Autódromo de Interlagos”, destacou o CEO do Grande Prêmio de São Paulo, Alan Adler, à reportagem.

Entrar é bom, sair é melhor

Mas o que torna o S do Senna tão especial para os pilotos? Para Max Wilson , comentarista do Grupo Bandeirantes de Comunicação , há dois pontos cruciais.

O primeiro é a inclinação na entrada do trecho: o lado de dentro da primeira curva, pela esquerda da pista, é mais baixo que o lado de fora, pela direita. Assim, o piloto precisa não apenas acertar a quantos metros vai frear, mas também por qual lado vai atacar o S.

“Ali na na zona de frenagem do S do Senna, a pista tem uma inclinação bastante pronunciada. Muitas vezes, na televisão, não dá para perceber, mas a pista é bastante inclinada. Então, a primeira parte muito importante ali é o piloto se adaptar a isso. E ele se adapta muito controlando a pressão de freio na freada do S do Senna, que é uma freada bastante forte - porque você vem lá da Junção (curva 12) de pé embaixo, é o maior ponto de velocidade do circuito de Interlagos”, explicou Max, que já correu em Interlagos por categorias como Fórmula 1600, Fórmula Ford, Fórmula Chevrolet, Fórmula 3 Sul-Americana e Stock Car, entre outras.

“Pelo fato de ser inclinado ali lateralmente, ela tem ali como se fosse um pouco de cambagem. Você não pode aplicar a pressão de freio da mesma maneira que você aplicaria se a pista fosse plana naquele ponto do circuito”, explicou.

A segunda questão é a sequência de curvas: a primeira à esquerda e a segunda à direita, antes que o piloto saia acelerando na Curva do Sol (curva 3) em direção à reta oposta, até a Descida do Lago. Segundo Max, se o piloto entra errado na primeira curva do S, prejudica a saída - assim, perde uma aceleração preciosa na disputa contra os rivais.

“Quando você tem duas curvas em sequência, como são as curvas nesse formato S, você tem que sempre saber o que que você tem que priorizar e o que tem que sacrificar. E no caso do S do Senna, pelo fato de a segunda perna dar acesso a uma zona de aceleração plena, que é a Curva do Sol, e na sequência a reta oposta, é importante não fazer muito rápido a primeira perna do S do Senna. Quando você carrega um pouco de velocidade na primeira perna do S do Senna, você acaba ficando mal posicionado para a segunda perna - e, em função disso, você perde tempo na reta oposta”, explicou.

Tudo sobre o GP São Paulo de F1

O Autódromo de Interlagos será palco do Grande Prêmio de São Paulo de Fórmula 1 de 2025 , agendado para o fim de semana de 7 a 9 de novembro. A etapa, que contará com o formato sprint pela quinta vez na temporada (de um total de seis), terá uma corrida mais curta no sábado (8), antes da prova principal no domingo (9), marcada para as 14h (horário de Brasília).

A edição de 2024 consagrou Max Verstappen, da Red Bull, como vencedor após uma impressionante corrida de recuperação, saindo da 17ª posição. Para este ano, a cobertura completa do evento, incluindo todas as sessões de treinos, classificações Sprint e principal, a corrida Sprint e a corrida principal, será transmitida ao vivo pelo Band.com.br e pelo aplicativo Bandplay .

Programação Completa do GP de São Paulo 2025 (Horário de Brasília)

Sexta-feira, 7 de novembro:

Sábado, 8 de novembro:

Domingo, 9 de novembro:

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