"Debochada, irônica, maliciosa, Dercy sempre lutou contra a hipocrisia". Foram com essas palavras que o jornalista Roberto D'Ávila apresentou Dercy Gonçalves no Canal Livre, programa marcado por entrevistas históricas na Band. À época com 73 anos, a veterana do teatro e da televisão não poupou palavras e surpreendeu a bancada do programa com bom humor, franqueza e coragem perante a ditadura militar.
A entrevista completa de Dercy, que teve deboche aos censores, confissões de que era feminista e críticas à situação do Brasil em 1980, não agradou a ditadura militar, ainda atuante. O programa chegou a ser apreendido pela censura, o que foi noticiado por jornais da época:
"O Canal Livre da Rede Bandeirantes foi um programa que forneceu bons momentos e recordações importantes neste 1980. Gerou brigas a entrevista com Chico Buarque , deu confusão com a Censura a de Dercy Gonçalves e, pasmem, a de Fernando Gabeira passou em brancas nuvens. Mas sempre tudo realizado de maneira muito profissional",dizia uma crítica do Jornal do Brasil de outubro de 1980.
Mas mesmo apreendida pela censura da época , o acervo da Band ainda guarda esta histórica entrevista. E o Band Entretê resgatou alguns trechos da conversa de Roberto D'Ávila. O apresentador era acompanhado pelos jornalistas Heloísa Buarque de Hollanda, Fausto Wolff, Flávio Rangel e Gabriel Prioli Neto, além de outros convidados, como a filha Decimar Gonçalves.
Dercy "faria tudo de novo"
Perguntada por Flávio Rangel sobre a possibilidade de trabalhar com drama, Dercy foi categórica: "Para quê? Já basta a miséria que estamos, vou fazer os outros chorar?". Na época da entrevista, Dercy trabalhava em "Cavalo Amarelo", novela em que fez sucesso como Dulcinéa e que teve até participação de Hebe Camargo .
Logo depois, ele questiona se ela faria tudo de novo nos 55 anos de carreira que completara em 1980. "Tudo! Mas tudo de novo, eu voltaria a ser artista, porque não sofri no teatro, na minha trajetória, eu vivi. E a vida é viver, ir gozando ela, ninguém encontra só flores, você encontra tudo no caminho e o obstáculo é o que dá valor na sua vida", afirmou.
Feminista sim, mas sem ajudar os outros
Heloísa Buarque de Hollanda questionou se era difícil ser mulher para Dercy, o que fez ela confessar que era feminista . "Lutei a vida inteira pela minha posição, meu nome, bem-estar, para minha tranquilidade, pela minha paz. Lutei a vida inteira para tudo isso que tenho hoje, aos 73 anos. Sou jovem, sou viva, sou viçosa, eu sei que sou", afirmou.
Mas apesar de lutar pela própria posição, Dercy não se considerava altruísta e sim, lutava por si e pelos seus. "Você acha que eu saio da minha terra, aos 17 anos, vou lutar pelos outros cara? E depois ainda tive uma filha, numa circunstância desgraçada, que não era para vir, mas graças à Deus veio", disse e completou:
"Veio, hoje tenho ela e é uma razão para viver, um motivo para viver, porque no momento eu nem poderia ter ela, como vou cuidar dos outros?".
História do Canal Livre
Com mais de 45 anos de história, o Canal Livre é considerado um dos programas de entrevista mais respeitados do Brasil. A atração da Band é uma das mais longevas da televisão brasileira e mantém a tradição de receber, todos os domingos, as figuras de maior relevância nos cenários da política, economia e cultura do país.
No começo, o programa tinha um tom de resistência e ousadia. Tanto, que na edição de Dercy Gonçalves, o nome do programa era "Canal Livre, o direito do homem". Na abertura das primeiras edições, o roteiro incluía a leitura dos direitos do homem, um gesto considerado perigoso e desafiador para o contexto político da época.
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