
Após quase uma década de hiato, a banda carioca Forfun voltou aos palcos e está vivendo um momento especial com os fãs. Em entrevista exclusiva ao Band.com.br, Vitor Isensee (tecladista, guitarrista e vocalista) e Rodrigo Costa (baixista e vocalista) falaram sobre a retomada da banda, a recepção do público, diferenças superadas, mudanças no cenário musical e o que o futuro reserva — se é que reserva algo.
A ideia de voltar surgiu quando a banda completaria 20 anos, em 2021. Mas os planos foram interrompidos pela pandemia. “A gente tinha pausado em 2015, seguido outros projetos, ficamos um tempo sem tocar. Mas quando a banda ia completar 20 anos, pensamos: ‘vamos fazer pelo menos um show especial, de comemoração’”, lembra Rodrigo.
Com o adiamento forçado, a reunião só aconteceu no ano passado, e a resposta do público surpreendeu. “A venda foi tão legal, a repercussão tão boa, que a gente ficou empolgado em fazer mais shows”, conta Vitor. Assim nasceu a turnê de reencontro de 2024, que ganhou um "bônus" em 2025 com shows em grandes festivais: o Doce Maravilha e a I Wanna Be Tour.
Mas antes da nostalgia tomar os fãs do Forfun, os membros do grupo precisaram superar as diferenças, que, inclusive, ocasionaram o fim da banda. O grupo se desmanchou em 2015. No anúncio, os integrantes disseram sentir "profunda amizade, admiração e amor" uns pelos outros, mas ao longo dos anos outras razões vieram à tona.
Os fãs começaram a suspeitar de problemas de convivência quando três dos quatro integrantes — Vitor Isensee, Danilo Cutrim e Nícolas Fassano — formaram uma nova banda, o Braza, sem o baixista Rodrigo Costa.
Rodrigo tinha discordâncias políticas com os outros integrantes. Em 2019, ele relembrou como o seu posicionamento político causava problemas na banda: "O meu erro, talvez, dentro de toda a estrutura do Forfun, tenha sido essa fome de querer mudar as cabeças dos três como a minha estava sendo mudada. Comecei a ficar meio chato".
Para os fãs que acompanharam o fim da banda, Vitor tranquiliza: “O tempo é maravilhoso. Ele permite amadurecimento. A minha sensação é que ficou só a parte boa. Até os assuntos que achávamos que iam gerar debate, como repertório, fluíram super bem”.
Vitor conta que eles sempre pensam no quanto esses reencontros são importantes para o público. “A gente viu pessoas muito felizes desses shows acontecerem. E foi muito emocionante. Não teve muito espaço para eventuais divergências aflorarem. Acho que o clima foi tão legal. E a oportunidade também. Porque profissionalmente foi um passo muito importante para a gente”, considera.
“A banda já era grande em 2015, mas agora tem uma proporção ainda maior. A estrutura, a equipe, tudo isso trouxe mais confiança e autoestima. Foi o melhor clima possível”, disse o guitarrista.
Questionados sobre o papel do dinheiro nessa retomada, ambos foram diretos. “Tivemos muitas propostas nesses nove anos, inclusive financeiramente interessantes, e nem por isso voltamos antes”, destaca Vitor. “Esse momento foi especial, o reencontro com o público, ver tanta gente feliz, isso não tem preço.”
“Emo alegre”
Prestes a se apresentar no festival I Wanna Be Tour, cujo objetivo é transportar o público para os anos 2000 – época em que o emo e o pop punk dominavam os fones de ouvidos e influenciavam toda uma geração, os músicos explicam que nunca se encaixaram totalmente na estética emo. No entanto, garantem fazer parte da cena com orgulho.
“Sempre fomos um pouco mais praianos, ensolarados, mas tocávamos nos mesmos festivais, fizemos muitas amizades nessa cena”, lembra Rodrigo. “Tem até vídeo antigo brincando que a gente era o ‘emo alegre’”, completa.
"A gente nunca usou franja, sempre foi mais da bermuda do que da calça skinny. Até o jeito de falar era diferente. Mas a gente estava junto, vivendo aquele momento”, acrescenta Vitor.
Tem espaço para todo mundo
Criado em 2001, o grupo marcou uma geração. Em 2008, o quarteto lançou o álbum Polisenso. E foi justamente com esse álbum que, em 2009, a banda recebeu o prêmio de “Melhor Banda de Rock” no Video Music Brasil, da MTV. O disco fez muito sucesso na internet, totalizando mais de 800 mil downloads na época.
No final de 2012, o quarteto gravou seu primeiro DVD e, em 2014, lançou seu quarto e último álbum de estúdio,Nu. Mas será que, em 2025, o som do Forfun ainda conquista as novas gerações?
“A gente nunca teve certeza se iam gostar, nem no início”, responde Rodrigo. “O prazer sempre esteve mais no processo de criação. Se o resultado vier, ótimo. Se não, a gente vai catar outra coisa para fazer”, brinca.
Vitor, por outro lado, acredita que existe um espaço a ser ocupado: “Vivemos tempos que precisam de otimismo. E isso sempre foi uma marca da banda, mesmo quando a letra falava de problemas, a mensagem era de esperança”. Ele relata que, nos shows da turnê de 2024, foi comum ver antigos fãs, agora adultos, curtindo com seus filhos. “Assim como a gente descobriu os Novos Baianos muitos anos depois, acredito que a galera mais nova pode descobrir o Forfun”.
Os músicos também observam as grandes mudanças no mercado musical desde o início da banda. Para Rodrigo, o destaque vai para as transformações tecnológicas: “Hoje, qualquer artista consegue gravar e divulgar seu trabalho com celular e aplicativo. As possibilidades são infinitas. Na nossa época, era tudo muito mais difícil”.
Vitor acrescenta que a tecnologia influenciou, inclusive, a maneira de produzir e consumir música: “Hoje, todo mundo tem clipe, por exemplo. Antes, quem tinha clipe se destacava muito. As redes sociais mudaram tudo no mercado da música. Mas a gente tem nosso espaço”.
Quais os planos do Forfun?
Apesar da empolgação com o retorno, os músicos deixam claro que novos lançamentos ou turnês não são prioridades. “Nada está fechado, mas também não tem nada planejado”, diz Rodrigo. “Temos nossos projetos paralelos. Eu me mudei para Porto Alegre, minha esposa está grávida da nossa segunda filha. A vida está corrida”.
Vitor completa: “Nunca fechamos portas para nada. Esse reencontro foi improvável. A gente quer viver um passo de cada vez. Fazer show toda hora também perde a graça. Então a gente tem essa consciência de ‘vamos com calma’”.
Ao ser questionado sobre o que diria para quem esperou tanto tempo pela volta, Vitor respondeu: “Aproveita. Vai lá, vive isso. Se joga. Espreme essa laranja até o último suco. Sem preocupação com o amanhã”.
Rodrigo, por sua vez, escolheu uma música para definir esse momento: "Sol ou Chuva", que conforme dados do YouTube Charts , no último ano, foi a mais ouvida do grupo na plataforma. “Corre pra varanda e vem cá ver, faça sol ou chuva, um lindo dia vai nascer. Isso resume bem o que estamos vivendo”, conclui o baixista.
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