
O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou, nesta quarta-feira (5) um corte (o 4º corte consecutivo) de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), como já esperava o mercado financeiro. A Selic cai de 14,25% para 14%. Agora, o mercado já começa a atuar nas indicações sobre os próximos passos do ciclo de flexibilização monetária. O mercado busca entender se o Banco Central abrirá espaço para mais duas ou três reduções de 0,25 ponto percentual até o fim do ano ou se poderá interromper o ciclo.
O Comitê de Política Monetária (Copom) é o órgão do Banco Central, formado pelo seu Presidente e diretores, que define, a cada 45 dias, a taxa básica de juros da economia – a Selic. A Taxa Selic é o principal instrumento de política monetária do Brasil, funcionando como a taxa básica de juros que orienta todo o mercado financeiro — de empréstimos e financiamentos a investimentos. Definida pelo Banco Central, ela tem como objetivo principal controlar a inflação , ajustando o equilíbrio entre o consumo e a oferta de bens e serviços. Empréstimos pessoais, financiamentos de veículos e o crédito imobiliário acompanham de perto as taxas praticadas pelo mercado.
A reunião desta semana ocorreu em um contexto de pressões divergentes sobre a inflação . De um lado, houve um alívio no comportamento dos preços nos indicadores mais recentes, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgado na semana passada, e que ficou 0,06% em julho, um recuo de 0,35 ponto percentual em relação á taxa anunciada em junho (0,41%).
No acumulado de 12 meses, o IPCA-15 também desacelerou, passando dos 4,80%, registrados em junho, para 4,52%. Esse freio costuma deixar a autoridade monetária mais confortável para prosseguir com um ciclo gradual de redução do juro . No entanto, novas frentes de tensão no Oriente Médio e incertezas sobre como o conflito poderá afetar os preços ao consumidor e mantém o Copom em alerta para possíveis repiques na inflação .
Cenário Interno e Inflação
No comunicado oficial divulgado após a reunião, o colegiado apontou que os indicadores recentes mostram uma desaceleração gradual da inflação , em linha com as projeções do mercado e com as metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
A atividade econômica doméstica apresenta sinais de moderação, embora o mercado de trabalho continue em patamares aquecidos. O Copom reforçou que seguirá monitorando de perto a evolução das expectativas de inflação para os próximos anos, avaliando os impactos cumulativos dos ajustes na política monetária.
Incertezas Externas e Cautela
O ambiente internacional continua sendo um dos principais pontos de atenção para o Banco Central. O comitê destacou que o cenário externo permanece cercado de elevada volatilidade , influenciado por:
Desdobramentos geopolíticos: Riscos persistentes associados a conflitos globais e seus reflexos diretos sobre os custos de energia e cadeias de suprimento.
Política monetária externa: Dúvidas quanto ao ritmo e à extensão do corte de juros por parte de bancos centrais em economias avançadas, o que impacta o fluxo de capitais e o câmbio.
Comunicado oficial
"O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição acerca dos conflitos armados no Oriente Médio e da incerteza sobre a política monetária em algumas economias avançadas. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.
Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores divulgados desde a última reunião sugere uma moderação gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, com sinais mistos entre setores, e mercado de trabalho aquecido. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia desacelerou, porém ainda acima do limite superior da meta, enquanto as medidas subjacentes desaceleraram para patamar ligeiramente abaixo do limite superior da meta.
As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 5,0% e 4,2%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,2% no cenário de referência (Tabela 1).
Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, permanecem mais elevados que o usual, com assimetria altista. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado, com horizontes mais longos incorporando impactos potenciais de segunda ordem de choques de oferta, relacionados ao petróleo e seus derivados, e a efeitos climáticos sobre a produtividade agrícola e custos de energia; (ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; (iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada; e (iv) estímulos à demanda agregada, em particular ao componente de consumo, que tenham como resultado o crescimento da atividade econômica acima do produto potencial, enfraquecendo parte dos canais usuais de transmissão da política monetária. Entre os riscos de baixa, ressaltam-se (i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação; (ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente dos choques de comércio e do petróleo, e de um cenário de maior incerteza; e (iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.
O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza. Os indicadores correntes de atividade mantêm-se consistentes com uma trajetória de desaceleração no acumulado de 2026. O Comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação.
Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta.
O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,00% a.a., e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.
O cenário atual, caracterizado por significativo aumento da incerteza, desancoragem das expectativas e riscos elevados em torno do cenário base, demanda serenidade e cautela na condução da política monetária. O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta.
Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti, e Rodrigo Alves Teixeira."
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