
O brasileiro passa, em média, 157 dias por ano olhando para telas de smartphones, computadores e televisores . O dado alarmante revela que a população gasta mais tempo conectada do que dormindo. No entanto, o impacto desse hábito vai muito além do cansaço visual: a neurociência acaba de desvendar um mecanismo preocupante que associa a hiperconexão diretamente à infelicidade, ao aumento da ansiedade e à deterioração dos vínculos afetivos reais.
O alerta parte de Alexandra Olivares, conselheira de administração, docente e especialista em neurociência aplicada à tomada de decisões. Cruzando pesquisas nacionais e dados internacionais, a especialista explica que o cérebro humano possui uma estrutura chamada "rede neuronal por defeito" — ouDefault Mode Network(DMN). Quando hiperestimulada pela avalanche digital, essa rede sabota nossa capacidade de focar no momento presente.
O design das plataformas digitais modernas é projetado especificamente para essa finalidade. Elementos como a rolagem infinita (scroll infinito), notificações sonoras e visuais ininterruptas e uma "hierarquia plana de conteúdos" — que posiciona no mesmo nível de relevância uma tragédia humanitária, um meme engraçado e o cotidiano de um amigo — sequestram a atenção voluntária do indivíduo. O resultado é um estado crônico de dispersão.
"Um estudo de Harvard mostrou que passamos 47% do tempo acordados divagando, e quanto mais fazemos isso, mais infelizes nos sentimos. A tecnologia atual potencializa esse estado. Não estamos mais no comando da nossa própria atenção; há milhares de engenharias digitais trabalhando ativamente para nos manter capturados." , diz a especialista.
O que dizem os dados: o retrato da hiperconexão no Brasil
Os indicadores estatísticos refletem o esgotamento das relações interpessoais e os reflexos severos na saúde mental pública, atingindo desde a infância até a terceira idade:
1.000% de aumento nos atendimentos do SUS por ansiedade em crianças de 10 a 14 anos entre os anos de 2014 e 2024.
56% dos brasileiros admitem abertamente que usam o telefone celular muito mais do que gostariam.
68% já tentaram reduzir o tempo gasto nas plataformas digitais, mas enfrentam sérias dificuldades.
36% afirmam que o relacionamento amoroso ou a relação conjugal piorou nos últimos cinco anos devido ao uso excessivo de telas.
81% concordam que, embora a tecnologia facilite a comunicação, ela acaba afastando as pessoas no dia a dia.
Outro dado que preocupa pediatras e educadores é o da introdução precoce à tecnologia: uma em cada quatro crianças brasileiras acessa a internet antes mesmo de completar seis anos de idade.
Um problema que afeta todas as idades
De acordo com Alexandra Olivares, a "rede neuronal por defeito" surge no desenvolvimento cerebral entre os 7 e 9 anos de idade . Sem um treino explícito de atenção, essa rede tende a se fortalecer e enrijecer com o passar dos anos. Isso explica por que os efeitos colaterais da hiperconexão se manifestam de formas diferentes, mas igualmente graves, em cada faixa etária:
Crianças: Ocorre a perda da chamada "alfabetização social", que é a habilidade essencial de reconhecer-se humano através do outro. Relatos escolares já apontam crianças que não sabem brincar de forma autônoma sem o auxílio de telas, além de demonstrarem extrema dificuldade em mediar ou sustentar pequenos desentendimentos cotidianos.
Adolescentes: Passam a pautar a vida sob métricas puramente digitais, como volume de curtidas e número de seguidores. Confundem conflitos saudáveis do mundo real com o fenômeno do "cancelamento", tornando a autoestima completamente refém do algoritmo de engajamento.
Adultos: Propagação da "meia-presença", em que interagir com familiares e colegas com metade da mente voltada à tela tornou-se a norma social aceita. Surge também a "fadiga da compaixão", um esgotamento psicológico decorrente do consumo misturado de tragédias e futilidades em curtíssimos intervalos de tempo.
Idosos: Quase 90% dessa população utiliza o celular diariamente. Embora a tecnologia possua o potencial de aproximar parentes distantes, ela também isola: o encontro real e o convívio físico passam a ser integralmente substituídos pelo contato estritamente digital.
"O que mais me preocupa como mãe e profissional é que raramente fomos ensinados a cultivar a atenção. A DMN vai ganhando peso, e sair dela se torna cada vez mais difícil. É como um músculo que nunca foi exercitado. A boa notícia é que o cérebro é plástico. Práticas de atenção e meditação podem reorganizar essa 'casa interna' e devolver à pessoa o controle da sua própria experiência.", afirma.
Reintroduzindo a intencionalidade: o que fazer?
A especialista ressalta que o caminho viável não é a exclusão total ou o abandono da tecnologia, mas sim o resgate da intencionalidade nas ações diárias e a criação de pequenos rituais de desconexão:
Âncoras físicas: Estabelecer locais físicos fixos e obrigatórios para deixar o smartphone, como pequenas caixas organizadoras na entrada da residência. A prática deve ser priorizada em situações sociais ou como parte da rotina de higiene do sono à noite.
Fricção proposital: Romper o automatismo digital de forma consciente. Buscar substituir uma mensagem direta (direct) por um café presencial, trocar uma curtida fria por um elogio falado e priorizar visitas em detrimento de videochamadas sempre que possível.
Redes pequenas: Compreender as limitações biológicas e emocionais humanas. Não é viável sustentar vínculos e interações profundas com milhares de pessoas simultaneamente.
Corpo e presença: Resgatar experiências sensoriais do mundo real — o cheiro, o toque físico, o cansaço mecânico decorrente de um exercício e o prazer sensorial direto. Tudo aquilo que a bidimensionalidade de uma tela é incapaz de oferecer.
A ilusão da culpa individual
Embora as pesquisas indiquem que a maior parte das pessoas se sinta individualmente culpada pelo uso excessivo, Olivares pondera que a responsabilidade não pode recair apenas sobre as costas do usuário.
As plataformas digitais são minuciosamente desenhadas para provocar dependência psicológica. Desde a paleta de cores vibrantes até os alertas sonoros, passando pelos gatilhos visuais e algoritmos de recomendação, tudo opera para mitigar a resistência humana.
“Você pode até buscar pelo autocontrole, mas precisamos sempre lembrar que existe toda uma engenharia por trás das telas fazendo o possível para que você não se desconecte. Então não se frustre ou desista de primeira. No mundo de hoje, cada passo que você consegue dar em direção à intencionalidade já é extremamente significativo”, conclui a neurocientista.
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