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Artemis II: tudo sobre o retorno da Nasa à órbita da Lua

Missão de 10 dias só irá contornar o satélite e testar sistemas para pousos lunares e futuras viagens a Marte

Da redação

DA REDAÇÃO

31/03/2026 • 18:42 • Atualizado em 31/03/2026 • 18:42

Artemis II: tudo sobre o retorno da Nasa à órbita da Lua
Artemis II: tudo sobre o retorno da Nasa à órbita da Lua - Foto: NASA/Bill Ingalls

Prevista para ser lançada nesta quarta-feira (1º), às 19h24 (de Brasília), a Artemis II, missão do programa lunar da Nasa, marca o retorno de astronautas à vizinhança da Lua após mais de 50 anos.

Em um voo de cerca de 10 dias e mais de 685 mil milhas (aproximadamente 1,1 milhão de quilômetros), quatro tripulantes vão apenas orbitar o satélite natural e retornar à Terra, sem pousar na superfície.

Será o primeiro voo humano ao redor da Lua desde a Apollo 17 , em 1972, e servirá como ensaio geral para as futuras alunissagens do programa Artemis. O lançamento ocorrerá a partir da Plataforma 39B, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, usando o novo foguete gigante SLS e a cápsula Orion.

Ao longo da jornada, a Nasa vai verificar com humanos a bordo sistemas de suporte à vida, comunicações, navegação e desempenho da Orion em condições reais de espaço profundo.

A missão busca garantir que todos os componentes funcionem de forma integrada antes de autorizar pousos tripulados no Polo Sul lunar.

A tripulação: os rostos da nova era lunar

A tripulação da Artemis II reúne três astronautas da Nasa e um da Agência Espacial Canadense (CSA) . O comandante será Reid Wiseman, veterano de uma missão à Estação Espacial Internacional. O piloto será Victor Glover, enquanto Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen atuarão como especialistas de missão.

A missão inaugura uma era de exploração espacial mais representativa, ao levar pela primeira vez ao satélite terrestre uma mulher, um astronauta negro ,  e um não-americano.

Koch, engenheira que já bateu o recorde de permanência contínua de uma mulher no espaço, e Hansen, representante da CSA, simbolizam a ampliação da participação internacional e feminina na exploração lunar.

Glover, piloto da primeira missão operacional da cápsula Crew Dragon, também deve se tornar a primeira pessoa negra a viajar para a vizinhança da Lua. Já Wiseman leva para o comando da missão a experiência acumulada em voo espacial e em cargos de liderança dentro do corpo de astronautas da Nasa.

Além de operarem a Orion, os quatro astronautas executarão testes manuais de navegação, procedimentos de emergência e avaliações de comunicação, coletando dados que não podem ser obtidos apenas com voos não tripulados.

Vida a bordo: o cotidiano em 9 metros cúbicos

Durante os 10 dias de viagem, os quatro astronautas viverão no módulo de tripulação da Orion . O volume habitável é de cerca de 330 pés cúbicos, algo em torno de 9,3 metros cúbicos – o equivalente ao espaço interno de duas minivans compartilhado por quatro pessoas.

No interior compacto, a cápsula reúne sistemas avançados de suporte à vida responsáveis por controlar temperatura, umidade, oxigênio e remoção de dióxido de carbono. Armários, consoles eletrônicos e equipamentos científicos dividem espaço com alimentos, água, roupas e itens pessoais da tripulação.

Para dormir, os astronautas usarão sacos de dormir leves fixados às paredes, que funcionam como quatro redes suspensas dentro da cabine. A rotina diária inclui períodos de trabalho, refeições rápidas, exercícios físicos em dispositivos compactos e momentos de descanso, seguindo um cronograma rigoroso definido pela equipe em solo.

A missão também servirá para avaliar conforto, fadiga, saúde mental e dinâmica de grupo em um ambiente tão restrito por vários dias. Esses dados serão fundamentais para planejar estadias mais longas em órbita lunar e, no futuro, viagens de meses rumo a Marte.

Foguete SLS e a ciência extrema da reentrada

Para deixar a Terra, a Artemis II usará o Space Launch System (SLS) , considerado a espinha dorsal das missões de espaço profundo da agência. Na configuração prevista para a missão, o foguete combina dois grandes propulsores laterais a combustível sólido e quatro motores RS-25 alimentados por hidrogênio e oxigênio líquidos.

Na decolagem, o conjunto é capaz de gerar quase 9 milhões de libras de empuxo, força suficiente para erguer o foguete, a torre de escape, a Orion e a estrutura superior em direção à órbita terrestre.

Após a queima dos estágios e a manobra em direção à Lua, a cápsula seguirá sozinha, guiada por seus próprios motores e sistemas de navegação.

O retorno à Terra será um dos pontos mais críticos do voo. Para aproveitar a energia da trajetória lunar e ainda assim pousar com segurança, a Orion reentrará na atmosfera a cerca de 30 vezes a velocidade do som, o que equivale a dezenas de milhares de quilômetros por hora.

Nessas condições, o atrito com o ar gera temperaturas que podem ultrapassar 2.700 ºC na superfície do escudo térmico. A nave testará um perfil de reentrada que inclui uma espécie de 'salto' na alta atmosfera, técnica que ajuda a reduzir a velocidade gradualmente, limitar a desaceleração sentida pela tripulação e aumentar a precisão da queda no oceano.

Infraestrutura: as máquinas gigantes que movem a missão

Por trás do lançamento da Artemis II está uma infraestrutura de solo modernizada , coordenada pelo programa Exploration Ground Systems (EGS) no Centro Espacial Kennedy. O complexo inclui a histórica Plataforma 39B, adaptada para receber o SLS, e o gigantesco lançador móvel que transporta o foguete do prédio de montagem até a área de disparo.

Um dos destaques é o novo tanque esférico de armazenamento de hidrogênio líquido (LH2) instalado ao lado da plataforma. Com capacidade de 1,25 milhão de galões de propelente criogênico utilizável, ele é hoje a maior esfera de hidrogênio líquido do mundo.

Esse reservatório permite abastecer o SLS com segurança e garante margem para múltiplas tentativas de lançamento em janelas próximas, reduzindo o impacto de adiamentos provocados por condições meteorológicas desfavoráveis ou ajustes técnicos de última hora.

A infraestrutura de solo inclui ainda sistemas de ventilação, energia e comunicação, além do sistema de supressão acústica com o despejo de grandes volumes de água durante a decolagem. Todo esse conjunto de máquinas gigantes foi projetado para dar suporte não apenas à Artemis II, mas a toda a série de voos do programa.

O cronograma da Nasa: do Polo Sul lunar rumo a Marte

Ao colocar uma tripulação em órbita lunar e trazê-la de volta com segurança, a Artemis II funcionará como teste definitivo de sistemas críticos no ambiente de espaço profundo. Tudo o que a Nasa aprender nesse voo, de procedimentos de emergência a respostas fisiológicas dos astronautas, servirá de base para as próximas etapas.

A partir dela, a agência planeja uma sequência de missões que começa com o retorno ao solo lunar e, no longo prazo, mira a preparação de viagens humanas a Marte.

Segundo a Nasa, esse encadeamento de missões deve criar uma presença sustentável na órbita e na superfície da Lua, com o uso de módulos de pouso comerciais, infraestrutura fixa e, futuramente, da estação lunar Gateway.

A experiência acumulada em logística, engenharia e saúde humana no espaço profundo é vista pela agência como o passo necessário para, nas próximas décadas, enviar astronautas até a órbita e a superfície de Marte.

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