Naiara tinha apenas 22 anos quando se apaixonou por Cícero, um homem simples e de sorriso fácil que conheceu na feira. Eles construíram uma vida juntos, onde o amor parecia ser o suficiente para superar todas as dificuldades. No entanto, a chegada de Rômulo, seu chefe rico e encantador, a fez questionar se o amor realmente enche barriga e se a escolha que fez pelo coração foi a decisão certa para seu futuro. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM , desta quarta-feira, 24.
Nem toda escolha cabe num único sorriso. Nem todo amor resolve todos os problemas. Meu nome é Naiara, e eu tinha só 22 anos quando conheci o Cícero em uma feira.
Foi ali, no meio das batatas, dos tomates e dos repolhos que eu me apaixonei por ele. Logo no primeiro olhar. A partir daquele dia, toda vez que tinha feira, eu aparecia na barraca dele.
O Cícero tinha as mãos calejadas, tinha uma vida sofrida e difícil, mas tinha um sorriso que nunca saía do rosto. E foi esse sorriso que me fez amar aquele homem.
Nós começamos a namorar e, em menos de três meses, eu fui morar com ele. Não tinha nenhum luxo, quase nada de conforto, mas o Cícero tinha o dom de transformar o pouco em muito.
Do lado dele, eu descobri que amar era sinônimo de lar.
A gente dividia a casa pequena, as contas, que pareciam cada vez mais pesadas, e até o trabalho na feira quando ele precisava de ajuda. Acima de tudo, a gente era amigo, companheiro para tudo. Eu sabia que o Cícero estava lá e sempre estaria para o que desse e viesse.
Um dia, nós dois subimos no telhado para consertar um buraco e, assim que nós descemos e entramos em casa, começou uma chuva que abriu goteira em todos os cantos. Ficou pior do que estava antes e a casa parecia que ia desabar, mas nós olhamos um para o outro e tivemos uma crise de riso. Aquele momento bobo me marcou porque, para mim, ficou óbvio que a gente era isso: parceria. A gente tinha a capacidade de rir da desgraça e se amar nas dificuldades.
Eu senti que eu nunca mais ia ficar sozinha no mundo.
— Eu trouxe um café pra você, Naiara.
— Você colocou açúcar?
— Quatro colheres cheias, do jeito que você gosta.
— Você me conhece mesmo, né?
— Melhor do que você mesma...
Era verdade. Ele me conhecia. Só de olhar para mim, ele sabia exatamente o que eu estava pensando ou sentindo. Eu nunca conseguia mentir para o Cícero e eu gostava disso.
Dizem que a paixão, aquela coisa louca que vira a nossa cabeça, só dura dois anos e que, depois disso, só permanecem juntos aqueles que se amam mesmo. Mas, durante cinco anos, nós vivemos uma verdadeira lua de mel em que a paixão parecia só crescer. Tudo era bom. Tudo era perfeito, mesmo que tivesse tantos problemas financeiros. A gente tinha construído o nosso próprio mundo e eu me orgulhava disso. Mas eu preciso lembrar que eu era muito jovem...
Quando a gente se conheceu e se apaixonou, eu só tinha 22 anos. Depois de cinco juntos, eu ainda tinha 27 e foi por aí que eu comecei a enxergar o mundo com outros olhos.
O dia em que o amor deixou de bastar
— Naiara, eu também quero muito, muito ter um filho, mas... mas olha a nossa vida.
— O que tem a nossa vida? Nossa vida é maravilhosa.
— É... a dois. A gente come macarrão instantâneo, a gente não liga para roupa nova, a gente fica numa boa quando cortam a luz, a gente... a gente se vira. Mas um filho? Um bebê?
— Eu sei! As coisas não são fáceis, mas muita gente por aí põe filho no mundo mesmo sem dinheiro.
— E é isso que você quer para o nosso filho? Sinceramente... você acha justo? Amor não enche barriga, Naiara. A gente tem que se preparar melhor, guardar dinheiro, fazer as coisas direito... Mas eu prometo que, um dia, a gente vai ter a nossa família.
Essa foi a primeira vez na vida que eu me senti envergonhada da nossa pobreza, que eu me importei com o fato de não ter dinheiro. Foi a primeira vez que eu fiquei triste por viver em uma casa simples, sem conforto и com as contas sempre apertadas. Até então, o amor bastava. Depois daquela noite, não bastava mais. Antes disso, eu levava tudo numa boa, mas, depois dessa conversa, eu entendi que nada era tão simples e que, como o Cícero tinha dito, “amor não enche barriga”.
Naquela fase, eu не tinha nenhuma profissão, nenhum emprego fixo. Eu fazia uma coisa aqui, outra ali, ajudava o Cícero na feira, vendia bolo de pote, fazia unha de umas vizinhas... não por folga, mas porque o dinheiro não era nada demais para mim. Eu não tinha ambições. Mas, depois disso, eu resolvi que era hora de me dedicar para valer em alguma coisa. O sonho de ser mãe, de ter um filho e construir uma família, foi o que me motivou.
Eu comecei a procurar emprego que nem louca, mas, como eu não tinha nenhuma experiência em nada, foi muito difícil.
Até que eu consegui! Consegui um trabalho como copeira em uma loja de carros importados. O salário nem era lá essas coisas, mas pelo menos era um fixo, era um começo e eu estava muito grata por aquela oportunidade.
Um outro mundo de possibilidades
Meu chefe na loja era o seu Rômulo, o gerente, um moço novo, da idade do Cícero, mas parecia de outro mundo. Ele era arrumado, bem penteado, sempre com a barba feita, com perfume, roupa da moda... Um homem que chama a atenção. Mas, apesar de toda a pose, era uma pessoa de um coração enorme. Às vezes, ele levava chocolate lá para a loja e sempre me dava alguns. Chocolate bom, viu? Coisa importada. Eu nunca tinha comido um negócio tão bom na vida.
No meu aniversário, o seu Rômulo me deu até um presente. Era uma carteira. Fazia só um mês que eu estava trabalhando na loja, mas ele foi muito gentil, dizendo que era uma carteira para guardar o dinheiro que eu ia ganhar no meu primeiro salário.
Nossa relação era de amizade, mas uma mulher sabe quando um homem começa a olhar para ela de uma forma diferente. Eu percebi o olhar diferente do seu Rômulo no dia em que ele me deu uma carona até a estação de metrô. Estava uma chuva muito forte e ele fez questão de me levar.
Eu lembro que, naquele dia, a primeira coisa que me impressionou foi o carro dele. Acho que eu nunca tinha entrado em um carro tão bonito. Tinha até uma televisão. Depois, o que me impressionou foi o jeito como ele me olhou. Ele não tentou fazer nada. Ele sabia que eu era casada e respeitava isso. Mas ali eu vi que as coisas tinham mudado para ele.
Na semana seguinte, o seu Rômulo falou para a gente ir almoçar no restaurante da rua. Eu falei que não podia porque era muito caro para mim, mas ele falou que era um convite e, mesmo sabendo que eu não devia, eu fui. Eu nunca tinha ido comer em um restaurante daqueles e achei que uma vez não ia fazer mal. Até porque ele podia ter segundas intenções, mas eu não tinha.
Olha, se eu fechar os olhos agora, eu ainda consigo me lembrar do gosto daquele macarrão que eu comi. Foi a melhor refeição da minha vida... eu me senti tão importante!
Juro, eu fiquei tão emocionada que eu comecei a chorar. O seu Rômulo perguntou o que eu tinha e eu, com vergonha, disse... abri o coração mesmo. Falei das minhas dificuldades financeiras, do meu sonho de ser mãe, da vida simples, tudo... falei que para ele podia ser bobagem, mas que para mim era difícil. Foi aí que ele pegou na minha mão e falou que não era bobagem e que ele me admirava pela minha simplicidade, mas que eu tinha que saber que a vida podia ser melhor do que eu estava acostumada. Eu não entendi muito bem e, delicadamente, eu tirei minha mão da dele, mas, naquela noite, eu não conseguia parar de pensar no que ele tinha dito:
"A vida podia ser melhor."
“É hora de colocar os pés no chão”
Aos poucos, eu fui me encantando com aquela vida que eu nem conhecia. Aquela vida que podia ser melhor. Eu passava o dia no trabalho vendo o seu Rômulo tão fino, tão arrumado e, quando chegava em casa, via o Cícero, tão simples, tão maltratado.
Quando eu e o meu marido tínhamos alguma conversa sobre gasto, sobre conta, sobre falta de alguma coisa, eu pensava na hora: “Seu Rômulo não passa por nada disso”. “Seu Rômulo poderia ter um filho a hora que quisesse, se quisesse”. A tentação foi chegando devagar.
Eu não sei por que, eu não sei como, mas o seu Rômulo estava interessado em mim de verdade. E esse interesse dele passou a mexer muito comigo. “A vida podia ser melhor”.
Com ele, a vida com certeza seria melhor. Eu me pegava pensando e sonhando: uma casa que teria móveis, um carro ao invés do ônibus lotado, contas pagas com tranquilidade, almoços em restaurante, um simples chocolate... um filho que teria tudo do bom e do melhor.
— O que você tem, Naiara?
— Eu? Por quê?
— Não é de hoje que eu sinto você estranha, distante...
— Coisa da tua cabeça, Cícero.
— Não é, não. Você sabe que não consegue mentir para mim. Se você не quer falar, eu respeito. Mas não esquece que eu estou sempre aqui para você. Conta comigo, viu? Quando quiser, eu estou aqui para te ouvir.
Naquela noite, eu chorei por horas. Aquele era um homem bom. Ele não tinha tido sorte na vida e não tinha nada a me oferecer além do mais importante: o amor dele.
Aquele era o meu homem. Era o meu amor, meu parceiro, aquele que – eu sabia – sempre estaria ali para me ajudar, me estender a mão, me respeitar, me amar.
Era com ele que eu tinha escolhido ficar, e se essa escolha significava ser pobre, assim seria.
Aquela situação toda tinha me balançado, mas era hora de colocar os pés no chão. O Cícero era a minha escolha e, para tirar aquelas coisas da cabeça, eu comecei a procurar outro emprego, o que eu consegui logo, graças a Deus.
Quando eu saí da loja, eu me afastei para sempre do seu Rômulo. Ele pediu para eu ficar, disse que tinha sentimentos verdadeiros por mim, mas eu já tinha tomado a minha decisão.
Era o Cícero que eu amava.
20 anos de uma escolha amarga
Os anos passaram. A vida passou.
Eu continuo casada com o Cícero. Esse ano fez 20 anos que a gente está junto, e eu não posso dizer que eu sou infeliz, mas eu também não posso dizer que eu sou feliz.
Nossa vida é a mesma. A pobreza é a mesma. Tem fase melhor, fase pior, mas a nossa realidade ainda continua igual. Muitas vezes, como dizem, “vendendo o almoço para comprar o jantar”.
Eu tive dois filhos. Dois coitados que vivem de roupa doada, de passar vontade, de muitas vezes não ter o básico.
Quase toda noite eu penso no que poderia ter sido e não foi. Eu sinto arrependimento. Eu sinto uma vontade louca de poder voltar no tempo e fazer tudo diferente porque, como meu marido bem me disse anos atrás, “amor não enche barriga”.
Eu escolhi o amor, e hoje a barriga ronca de fome.
O Cícero é um homem bom, sempre foi, mas a verdade nua e crua é que, se eu pudesse voltar no tempo, eu faria tudo diferente, porque os anos trazem uma visão mais prática e menos romântica da vida. O amor tem seu valor, claro que tem, mas... e daí?
Escuta o que eu te digo: tem um custo muito grande em seguir só o coração. E eu digo isso com a frieza de quem aprendeu que amar é grande, mas não é tudo.
E, infelizmente, esse é o tipo de lição que a gente aprende tarde demais.
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