Agro

Saída da Häagen-Dazs expõe problemas no setor lácteo, avalia Cabrera

Saída da marca coincide com debates de alíquota estimada em 28% para alimentos processados; ex-ministro defende ambiente de negócios competitivo

Da redação

DA REDAÇÃO

26/08/2026 • 15:57 • Atualizado em 26/08/2026 • 15:57

A fabricante de sorvetes Häagen-Dazs encerra a distribuição de seus produtos no mercado brasileiro após quase 29 anos . A decisão, anunciada pela controladora General Mills, faz parte de uma reorganização global do portfólio da empresa e ocorre em meio aos desafios enfrentados pelo setor de laticínios no Brasil.

A saída da marca de sorvetes chamou a atenção de especialistas do agronegócio e da economia. Para o ex-ministro da Agricultura e colunista da BandNews TV, Antônio Cabrera, o movimento internacional serve como um aviso importante para o cenário econômico nacional. Cabrera avalia que a retirada da empresa coincide com o momento em que o país debate a regulamentação do novo sistema tributário . Na visão dele, as mudanças fiscais podem onerar produtos alimentícios de maior valor agregado.

O modelo em implementação prevê a instituição do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Os novos tributos devem aplicar uma alíquota padrão estimada em 28% sobre itens que ficarem fora da cesta básica isenta.

O especialista destaca a diferença de tratamento tributário entre o leite in natura e os produtos industrializados derivados da matéria-prima. Enquanto a base da cadeia tem isenção, o produto transformado passa a receber a alíquota cheia. "O leite em si, o leite in natura, vai pagar 0%, sem impostos. Mas se eu pegar aquele leite, adicionar açúcar, outros ingredientes, fazer um sorvete premium, como a Häagen-Dazs fazia, nós vamos passar a tributar ele como 28%, que é a estimativa da alíquota cheia aqui no Brasil", explica Cabrera.

Segundo o ex-ministro, qualquer processo de transformação ou industrialização que agregue valor ao alimento recoloca a mercadoria na faixa máxima de incidência de impostos. Para ele, esse desenho tributário pode prejudicar a competitividade do setor de alimentos.

Cabrera ressalta que as estratégias das multinacionais consideram fatores mundiais, mas o Brasil precisa construir condições atrativas para evitar a perda de investimentos. "O país em que as empresas decidem se vale a pena permanecer, investir, competir, o governo deveria estar preocupado em tornar o nosso ambiente de negócios mais simples, mais competitivo e não mais caro", avalia o colunista.

O especialista reforça a necessidade de reflexão das lideranças em Brasília: "As empresas podem sair por uma estratégia global, mas os governos em Brasília deveriam perguntar diariamente: nós estamos criando razões para que as próximas empresas não saiam e permaneçam aqui no Brasil?"

Ao analisar o contexto global, Cabrera cita a política recente adotada no Japão, onde o governo anunciou a redução de 8% para 1% nos impostos sobre alimentos vendidos em supermercados e lojas. O objetivo declarado pelas autoridades japonesas é diminuir o custo de vida e preservar a renda familiar.

"É um sinal político que o governo japonês está dando de uma forma muito clara: o alimento é o último lugar onde o governo deveria buscar arrecadação", pontua Cabrera ao comparar a postura internacional com a previsão de alíquotas elevadas sobre alimentos industrializados no mercado brasileiro.

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